abençoado frio da paz

A minha casca de verão protegia-me do calor abrasador que fazia lá fora e de que ouvia falar. Parece-me que vivi numa bolha de frescura por uns dias.

Fazia umas curtas surtidas fora da casca durante o dia para procurar o jornal diário e um ou outro olhar humano. E, enquanto bebia um café, escrevia umas frases curtas em pequenas folhas de papel de embrulho e, de soslaio, olhava as fotografias dos dias incendiados. Fazia surtidas mais longas fora da casca quando a noite caía e se libertava o ar da fresco da noite por força do apagamento do sol inclemente.

Uma dessas noites tornou-se mais fresca quando a dona do café da aldeia puxou da cadeira e se sentou para conversar sobre a vida que tinha sido dantes. A vida que ela contava passava-se com pobres sem agasalho, seus pés descalços em inverno frios e longos. Chegávamos a sentir o ar gelado do passado a passar pela esplanada e vímo-la, aos 12 anos, a passar no caminho de lama com a ?giga? cheia com os tachos do comer que ela transportava à cabeça para os operários que trabalhavam nas fábricas dos lugares vizinhos.

Será que procuramos outros tempos e outros acontecimentos porque nos sentimos cercados pelos incêndios?

Notícias da guerra mediterrânica não fazem mais que aumentar o calor destes dias e abafar a minha vontade de compreender. Há alguém que ordena que se bombardeie o ar quente e se exalta a ver as núvens de fogo e de poeira que se levanta dos escombros. Cada vez mais rápidas e urgentes as bombas partem de um e outro lado antes que a humanidade argumente tão fortemente que não seja possível continuar de um e outro lado. Esta guerra tem qualquer coisa de encenação de espectáculo irracional, nem clássico nem moderno, que obedece a marcações sem ter marcações nem limites, como se fosse uma dança infinita que começou noutro tempo e quer continuar porque só pode ser interrompida noutro tempo, no porvir.

Vejo pessoas desfocadas pela turbação que o ar quente provoca. Tanto lá como cá, na terra queimada.

E foi assim, incapaz de compreender, que me deixei chegar a este dia em que dentro da casca está tão quente como fora dela. E a vida se torna insuportável se perdermos a esperança de uma aragem fresca que assobie e da chuva miudinha que faça renascer um bosque onde agora sobra cinza e pó.

[o aveiro; 10/08/2006]

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