poemas para andar


    arsélio martins
  1. ando ao acaso pelas ruas
  2. prévert foi ao mercado das flores
  3. de todas as artes escolho a arte do fogo
  4. e eu vejo fugir-me da vista, ao longe, a linha da costa
  5. embrulha no teu lenço
  6. estou cansada demais para fazer de estátua
  7. baterás todas as horas como um relógio
  8. eu quero ser eu, o outro
UM
Ando ao acaso pelas ruas
para te encontrar por puro acaso.

As flores silvestres, que te dei, murcharam e depois apodreceram,
envenenadas por saberem que não lhes deste de beber.

Tive tanta pena de mim por as ter visto esquecidas
no vaso da entrada do prédio em ruínas.

A porta testemunha a minha timidez
e tu desces pelas escadas do prédio
sem veres o meu ramo das flores silvestres.

Ando ao acaso pelas ruas
do bairro em que vives
e espero encontrar-te por puro acaso.

Se um dia cheirares a alfazema e o trevo
talvez vejas os meus olhos febris

Mesmo a tua piedade me vai tornar feliz.

DOIS
Prévert foi ao mercado das flores
comprar as flores mais lindas e mais silvestres
para adornar o peito da mulher mais bela.

Prévert foi ao mercado das roupas
comprar os vestidos mais leves, frescos e belos
para vestir o corpo da mulher mais bela.

Prévert foi ao mercado dos vinhos
comprar os melhores néctares
para celebrar a mulher mais bela.

Prévert foi ao mercado das ferragens
comprar a corrente mais bonita e forte
para prender a mulher mais bela.

Prévert foi ao mercado dos escravos
para comprar a mulher mais bela

Felizmente tu,
meu amor,
não estavas lá.
TRÊS
De todas as artes escolho as artes do fogo:
moldado na argila mais doce, o homem cru
foi levado a um inferno demasiado quente.

O sopro do fogo
fez do homem esse cometa que, em algum lugar da terra,
se despenhou.

De todas as artes escolho a arte do olhar:
voa mais baixo a ave que pesca e mais alto voa a ave que caça:
é mais longínqua a presa em seu aquário de luz e
mais ágil é o conhecimento que vibra no cheiro do vento.


De todas as artes escolho a arte da fala:
falo-te que, quando deixas de ver as cores das palavras,
podes cheirá-las e segui-las até às folhas onde caíram como um
acidente
da voz dissonante que as alturas não seguram.

De todas as artes escolho a arte da ausência:
a tua ausência real e no teu lugar a tua falta, o vazio,
o oco, a forma do corpo, o homem ainda cru, homem ainda antes
de ser.
QUATRO
E eu vejo fugir-me da vista, ao longe, a linha da costa
de que me afasto lentamente, seguindo uma risca branca
que corta a ondulação ainda calma, apesar do Inverno.

Um salpico de água vem molhar-me os olhos;
se a mulher solícita vem saber porque choro
eu não sei responder, porque nem sei o que é saudade
nem sei o que as raízes são.

O mar ainda não está exaltado, claros estão ainda os céus
apesar de ver o rosto sombrio do Inverno.
Eu olho a mulher nos olhos e minto:
é a terra a dizer-me versos tristes de adeus.

CINCO
Embrulha no teu lenço
os cristais que a minha sabedoria e o meu olhar te recomendam
E manda entregá-los, por mensageiro alado,
ao cume mais alto onde a glória espera

Não te esqueças de os fazer acompanhar
de uma nota explicativa transparente como os cristais
para que a glória se surpreenda no brilho das palavras
e caia, se estilhace e voe por suas fendas de ar

Verás então que a promessa de amor que fizeste
tem asas para voar
e saberás que sentir é pressentir uma aragem,
um olhar veloz pelo decote do teu vestido vermelho.

Eu estarei lá, onde tudo vai acontecer,
para te segurar nos braços, receber os cristais e a mensagem
Eu estarei lá para me estilhaçar e para voar perdido,
pelas tuas fendas voar, em golfadas de luz.

SEIS
Estou cansada demais para fazer de estátua
e modelo dos teus versos desafinados.

Desenha depressa a curva dos seios em movimento
e deixa-me o lápis pousado no ponto em que o umbigo
começa a desenhar o caminho dos teus dedos ansiosos.


Estou cansada demais para fazer de estátua
e modelo dos teus versos desafinados.

Desenha em traços largos a cor dos meus olhos
e o lugar em que deixo cair as últimas roupas
desenha os teus gestos no meu corpo
e deixa as palavras para a paz que fizermos depois do amor

Estou cansada demais para fazer de estátua
e modelo dos teus versos desafinados

Desenha depressa o movimento da minha boca,
de cada monossílabo que eu diga
faz um verso.

Estou cansada demais para fazer de estátua
e modelo dos teus versos desafinados.
SETE

Baterás todas as horas, como um relógio. Eu sou um grave
batendo nos dois lados da tua campanula de cristal e aço.
Os meus olhos são trapezistas entre a minha cabeça e o espaço
onde vagueias em tua rotação horária de agoirenta ave.


Baterás todas as horas, como um relógio. Virás como andorinha
todas as horas da tua vida. Virás para comer o meu sal e o meu
grão.

Virás em voo rápido, como ave de rapina, e rasgarás o meu chão,
rasgarás o meu dorso e debicarás a ideia nele plantada e a erva
daninha.

Baterás todas as horas, hora a hora. A minha hora soará mais lenta
do que as outras que são as horas da alegria, da fé e da esperança.
Uma tortura dura a eternidade, a ferida de uma vertiginosa lança
há-de rasgar a minha vida para trás, até à primeira hora na placenta.


Baterás todas as horas. Como um despertador eléctrico da loucura,
virás lembrar-me todos os minutos da tua vida ainda a viver após
a morte.

Como um morcego desorientado pela luz, acenderás a minha má sorte
no pavio dos teus bordados, recitando os versos que jazem na tua
sepultura.


Baterás todas as horas, com um martelo de ouro e maldição
esmagarás o corpo do sineiro que eu fui antes de voar contigo
para o exterior
de onde mora o meu pesadelo, do salão assombrado, do lugubre corredor
afluente do rio do inferno onde fervem todos os pecados sem perdão.


Baterás todas as horas.
OITO
Eu quero ser eu, o outro
e não o outro que, em vez de mim, é
o que dá sentidos definitivos às palavras.


Eu quero sentir que o que digo hoje
só vale hoje e nem um minuto do dia de amanhã:
eu não quero defender-me das acusações
de ter sido leitor do dia de ontem.

Nada do que digo ou escrevo tem qualquer valor:
sou eu que declaro inútil o meu trabalho
no momento em que o seu produto ganha alento
e voa até à superfície do ar corrosivo.

Eu quero viver e morrer neste bairro pobre
e não ter ambição alguma
pois esta vai precisar de uma certeza para viver
e eu sei que a verdade é só a espuma de cada dia.

Eu quero ser eu, o outro
e não outro que, em vez de mim, é
aquele que poderia querer publicar
mais do que o comunicado anónimo à população
de que se tiraram seis exemplares numerados

Eu quero utilizar as vírgulas onde der mais jeito
e não onde o dever as utiliza
eu nem quero ser correcto, nem quero ser lembrado
por mais do que a forma de andar.

Se eu precisasse de escrever um testamento
ele teria título e nem mais uma palavra
pois a palavra lavrada não é chão que dê frutos naturais
nem é o ar leve onde voa o livre pensamento.

Eu quero ser eu, o outro
e não aquele outro de quem se espera uma ideia
como uma qualquer gota de minério raro
porque as minhas ideias sempre foram erradas
e errantes:
se alguém viu ou ouviu uma ideia minha
foi porque a perdi e as ideias perdidas não têm dono
nem podem ser achadas
nem podem ser devolvidas.

Eu quero ser eu, o outro.