poemas para andar
| |
| UM | Ando ao acaso pelas ruas para te encontrar por puro acaso. As flores silvestres, que te dei, murcharam e depois apodreceram, envenenadas por saberem que não lhes deste de beber. Tive tanta pena de mim por as ter visto esquecidas no vaso da entrada do prédio em ruínas. A porta testemunha a minha timidez e tu desces pelas escadas do prédio sem veres o meu ramo das flores silvestres. Ando ao acaso pelas ruas do bairro em que vives e espero encontrar-te por puro acaso. Se um dia cheirares a alfazema e o trevo talvez vejas os meus olhos febris Mesmo a tua piedade me vai tornar feliz. |
| DOIS | Prévert foi ao mercado das flores comprar as flores mais lindas e mais silvestres para adornar o peito da mulher mais bela. Prévert foi ao mercado das roupas comprar os vestidos mais leves, frescos e belos para vestir o corpo da mulher mais bela. Prévert foi ao mercado dos vinhos comprar os melhores néctares para celebrar a mulher mais bela. Prévert foi ao mercado das ferragens comprar a corrente mais bonita e forte para prender a mulher mais bela. Prévert foi ao mercado dos escravos para comprar a mulher mais bela Felizmente tu, meu amor, não estavas lá. |
| TRÊS | De todas as artes escolho as artes do fogo: moldado na argila mais doce, o homem cru foi levado a um inferno demasiado quente. O sopro do fogo fez do homem esse cometa que, em algum lugar da terra, se despenhou. De todas as artes escolho a arte do olhar: voa mais baixo a ave que pesca e mais alto voa a ave que caça: é mais longínqua a presa em seu aquário de luz e mais ágil é o conhecimento que vibra no cheiro do vento. De todas as artes escolho a arte da fala: falo-te que, quando deixas de ver as cores das palavras, podes cheirá-las e segui-las até às folhas onde caíram como um acidente da voz dissonante que as alturas não seguram. De todas as artes escolho a arte da ausência: a tua ausência real e no teu lugar a tua falta, o vazio, o oco, a forma do corpo, o homem ainda cru, homem ainda antes de ser. |
| QUATRO | E eu vejo fugir-me da vista, ao longe, a linha da costa de que me afasto lentamente, seguindo uma risca branca que corta a ondulação ainda calma, apesar do Inverno. Um salpico de água vem molhar-me os olhos; se a mulher solícita vem saber porque choro eu não sei responder, porque nem sei o que é saudade nem sei o que as raízes são. O mar ainda não está exaltado, claros estão ainda os céus apesar de ver o rosto sombrio do Inverno. Eu olho a mulher nos olhos e minto: é a terra a dizer-me versos tristes de adeus. |
| CINCO | Embrulha no teu lenço os cristais que a minha sabedoria e o meu olhar te recomendam E manda entregá-los, por mensageiro alado, ao cume mais alto onde a glória espera Não te esqueças de os fazer acompanhar de uma nota explicativa transparente como os cristais para que a glória se surpreenda no brilho das palavras e caia, se estilhace e voe por suas fendas de ar Verás então que a promessa de amor que fizeste tem asas para voar e saberás que sentir é pressentir uma aragem, um olhar veloz pelo decote do teu vestido vermelho. Eu estarei lá, onde tudo vai acontecer, para te segurar nos braços, receber os cristais e a mensagem Eu estarei lá para me estilhaçar e para voar perdido, pelas tuas fendas voar, em golfadas de luz. |
| SEIS | Estou cansada demais para fazer de estátua e modelo dos teus versos desafinados. Desenha depressa a curva dos seios em movimento e deixa-me o lápis pousado no ponto em que o umbigo começa a desenhar o caminho dos teus dedos ansiosos. Estou cansada demais para fazer de estátua e modelo dos teus versos desafinados. Desenha em traços largos a cor dos meus olhos e o lugar em que deixo cair as últimas roupas desenha os teus gestos no meu corpo e deixa as palavras para a paz que fizermos depois do amor Estou cansada demais para fazer de estátua e modelo dos teus versos desafinados Desenha depressa o movimento da minha boca, de cada monossílabo que eu diga faz um verso. Estou cansada demais para fazer de estátua e modelo dos teus versos desafinados. |
| SETE | Baterás todas as horas, como um relógio. Eu sou um grave batendo nos dois lados da tua campanula de cristal e aço. Os meus olhos são trapezistas entre a minha cabeça e o espaço onde vagueias em tua rotação horária de agoirenta ave. Baterás todas as horas, como um relógio. Virás como andorinha todas as horas da tua vida. Virás para comer o meu sal e o meu grão. Virás em voo rápido, como ave de rapina, e rasgarás o meu chão, rasgarás o meu dorso e debicarás a ideia nele plantada e a erva daninha. Baterás todas as horas, hora a hora. A minha hora soará mais lenta do que as outras que são as horas da alegria, da fé e da esperança. Uma tortura dura a eternidade, a ferida de uma vertiginosa lança há-de rasgar a minha vida para trás, até à primeira hora na placenta. Baterás todas as horas. Como um despertador eléctrico da loucura, virás lembrar-me todos os minutos da tua vida ainda a viver após a morte. Como um morcego desorientado pela luz, acenderás a minha má sorte no pavio dos teus bordados, recitando os versos que jazem na tua sepultura. Baterás todas as horas, com um martelo de ouro e maldição esmagarás o corpo do sineiro que eu fui antes de voar contigo para o exterior de onde mora o meu pesadelo, do salão assombrado, do lugubre corredor afluente do rio do inferno onde fervem todos os pecados sem perdão. Baterás todas as horas. |
| OITO | Eu quero ser eu, o outro e não o outro que, em vez de mim, é o que dá sentidos definitivos às palavras. Eu quero sentir que o que digo hoje só vale hoje e nem um minuto do dia de amanhã: eu não quero defender-me das acusações de ter sido leitor do dia de ontem. Nada do que digo ou escrevo tem qualquer valor: sou eu que declaro inútil o meu trabalho no momento em que o seu produto ganha alento e voa até à superfície do ar corrosivo. Eu quero viver e morrer neste bairro pobre e não ter ambição alguma pois esta vai precisar de uma certeza para viver e eu sei que a verdade é só a espuma de cada dia. Eu quero ser eu, o outro e não outro que, em vez de mim, é aquele que poderia querer publicar mais do que o comunicado anónimo à população de que se tiraram seis exemplares numerados Eu quero utilizar as vírgulas onde der mais jeito e não onde o dever as utiliza eu nem quero ser correcto, nem quero ser lembrado por mais do que a forma de andar. Se eu precisasse de escrever um testamento ele teria título e nem mais uma palavra pois a palavra lavrada não é chão que dê frutos naturais nem é o ar leve onde voa o livre pensamento. Eu quero ser eu, o outro e não aquele outro de quem se espera uma ideia como uma qualquer gota de minério raro porque as minhas ideias sempre foram erradas e errantes: se alguém viu ou ouviu uma ideia minha foi porque a perdi e as ideias perdidas não têm dono nem podem ser achadas nem podem ser devolvidas. Eu quero ser eu, o outro. |


