despudor claro






quero não me levantar ou antes  não levantar os ohos  para ver lá fora  
e ainda não tinha olhos que não chorassem comigo  
pela seguinte curva pedida pelo pé do dedo que se curvou e
se calou para o dia restante



de Arsélio Martins, mesmo quando não parece
.

somos, fomos, somos, seremos

Aqui me apresento como fui

Será que lá chego? diz o miúdo
Talvez chegues à minha idade? digo eu
O miúdo replica logo: Não posso chegar à tua idade.
E eu, o homem calo-me.

Acho estranho ele dizer que poderá fazer
o que eu ainda não fiz por saber o que ele sabe
depois de me ver por me ser difícil ver
e o que ele escreveu no papel que eu escrevi
e o que ele copiou do que eu escrevi

23, raramente

raramente escrevo sobre algum assunto que desperte
o interese de muita gente
nem o interesse de pouca gente que seja importante
nem sirva para alimentar algum diz que disse
que valha a pena seguir nos dias imediatos a ter sido escrito.

também raramente escrevo sobre os assuntos importantes
ou ajudo à discussão de assuntos importantes
com as frases importantes para a circunstância
dos assuntos importantes e fico sempre nas margens daimportância

de facto, eu gostava de ser o verso em branco de uma página
com uma linha que me tivesse marcado e a mais ninguém até ao ficar
convertido a ser a página seguinte do verso irredutível
mas desconhecido por todos
os anos do resto da minha vida.

raramente penso na minha vida como a página em branco que ela é
para continuar a ser uma oportunidade perdida
por mim e por ter escolhido uma forma de ser feliz
não sendo coisa alguma mais que os olhos capazes de ver o invisível
ar quando ele passa por perto
e se ri com aquelas gargalhadas que nem eu ouço.

Forquilhas

Forquilhas 
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Forquilhas tinha duas irmãs mais velhas. Uma delas chegou a frequentar os dois primeiros anos de um curso de manequim na Universidade de Santiago e anda à procura de emprego pelas montras da cidade. A outra acabou o preparatório na Escola da Variante e, tendo abandonado os estudos, anda a fazer inquéritos ao trânsito por conta do senhor Instituto. Forquilha foi criado por elas até à idade da reforma. Muito cedo, as irmãs deixaram de ter tempo para tomar conta dele e mal ele começou a gatinhar foram entregá-lo na porta do reformatório. 

No reformatório, Forquilhas aprendeu a arte de viver sem chatear a deus, nem ao director do reformatório e, ao fazer dezoito anos, deram-lhe alta. Ao sair do grande portão, deu de caras com duas mulheres. Espantado, viu que elas avançaram até ele e, depois de o beijarem, arrastaram-no para a limousine. Durante a curta viagem que fizeram, desde o reformatório até ao solar do livre arbítrio, lá lhe foram refrescando a memória sobre a família. 

Forquilhas ficou assim a conhecer as suas duas irmãs mais velhas, das quais já não se lembrava. Elas não pediram desculpa por nunca o terem visitado e ele também não esperava nada disso.
 
Ao lado do solar, numa pequena arrecadação, um jardineiro já velho acomodou o Forquilhas entre outras ferramentas. 
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Arsélio Martins escreveu 
para a voz de 
José António Moreira
na Rádio Independente de Aveiro
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18/09/93

Bem passado pelo espelho 3/10/2018

 Bem passado pelo espelho

3/10/2018

quando o olho no espelho se vê a si mesmo

não vê o portador do olho que quer ver o olho

dará dois passos atrás  o portador e, com ele,  o olho

e este será então parte do portador onde se procura


Um dia, ainda era madrugada, a minha mãe, disse que eu já não ia tirar o esterco das vacas. Tirou-me o engaço das mãos e entre  os meus dedos colocou uma canetas de dois gumes. Foi assim que, peremptória, aceitou a derrota  face à minha irmã  e me enviou para o esterco da universidade. Lá fui com o rabo entre as pernas, e,  na falta de melhor razão para tanto exílio, comecei  a estudar matemática nas horas que serviriam para tirar o esterco da cama da vaca minha. E  nas horas que se destinavam à leitura dos folhetos da feira, sentado ao fundo do curral, comecei a estudar política.

Durante uns anos maduros, não percebi muito bem porque tinha sido esse o meu destino e roía-me  de inveja dos olhos vivos e maliciosos dos meus companheiros camponeses que continuaram a tradição da sueca, da missa exterior de domingo, dos tremoregados com o vinho das tardes de domingo.

Agora já percebo. Com a entrada na comunidade aos vacas deixaram de usar camas de palha e junco e há máquinas de sugar o esterco dos currais para as terras e o leite das tetas das nossas vacas para os depósitos da cooperativa leiteira. E já se fala que o mercado há-de enterrar a fruta que faz falta na Europa de leste, na Etiópia ou em mo, mas não falta na Europa civilizada e comunitária. O internacionalismo mercantil tem a ver com o internacionalismo da miséria e não com o internacionalismo da partilha dos bens. Mesmo os bens que são distribuídos pela ajuda internacional são cotados em bolsa ou no mercado das comunidades benfazejas.

Se tivesse ficado na agricultura, já estava a pensar na reforma da minha mentalidade e da minha actividade. Como professor só tenho que enfrentar, para já, as reformas da entidade.


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do outro tempo, sem mudar o que se escreveu antes

Do passado para Rádio Independente de Aveiro...... como também para agora

Labirinto

O labirinto é. 

Cada um dos pereregrinos no labirinto pensa que conhece uma saída. Desenharam-lha no mapa da fé que recebeu como herança. 

Quando, num dos corredores do labirinto, um peregrino encontra outro de fé diversa, pode puxar da metralhadora. É por isso que os corredores dos labirintos do homem estão juncados de cadáveres. 

O chão do labirinto é feito de cadáveres que, na sua rigidez e podridão, criam uma elevação de cartografia sem fé. Quando a elevação é tal que os pergrinos podem ver por cima das muralhas do labirinto, são castigados pela luz. 

Cada um, à maneira da sua fé, benzem-se perante a realidade e, em vez da metralhadora, podem estender a mão. Falo dos peregrinos que se benzem de pé.

Os que só se benzem ajoelhados nunca verão por cima das muralhas. Para estes, a realidade tem o cheiro inconfundível dos seus mortos. Para estes, a saída é a redonda e abençoada boca da metralhadora capaz de fazer sobrepor o cheiro da pólvora ao cheiro dos mortos ou de tornar o cheiro inconfundível dos mortos dos outros mais forte que o cheiro dos seus mortos. 

Nos muros de Jerusalém desenhei estas palavras, nem tocadas pela fé, nem tocadas pela esperança. Queria dizer que as minhas palavras são sopradas pela razão e pela mente. Mas, perdido no labirinto das razões, sei que não há razão sem fé não sei em quê. 

22/09/93

a família dos amigos também fala

sentei-me no meu baloiço em que vejo a entrada do céu apoucado de costas voltadas para a janela quqe me deixava de ver vizinho que nem imagina o que eu vejo na rua quieta de hoje... ninguém quer saber o que eu vejo para me dar algum olhar de costas para a rua de costas viradas para mim e sem que me vejam de lá.

Re: Mensagens

Quando  posso escrevesses com a mais perdido de quanto …. No dia 06/07/2024, às 10:23, Arselio Martins <arselio@gmail.com> escreveu: M...