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24.7.08
  primeiro, as cabeças

das obras de s. joaquim (mónica filipe)
 
22.7.08
  a revelação
A última semana revelou-se difícil de viver. Sabemos da morte inevitável para cada um de nós e sabemos da possibilidade da morte dos que nos são próximos em qualquer dia do ano. Mais sabemos da elevada probabilidade de que os nossos doentes morram a qualquer momento. Mas nunca encaramos a separação física definitiva, mesmo quando sabemos que ela já está realizada em sofrimento mais que na morte real. O sofrimento separa-nos uns dos outros mais que a vida. Costumo dizer que a vida manda que nos movimentemos para nos afastarmos uns dos outros. O movimento autónomo é sinal de vida e é sinal de separação. Andamos sempre a procurar elementos separadores enquanto crescemos. Só nos consideramos adultos quando nos separamos. Ansiamos pelas separações. Mas não aceitamos a morte como separação e resistimos-lhe. Agarramo-nos aos vivos enquanto estão vivos. Porque a morte serve para efectuar um corte doloroso, uma separação distinta. Doces separações aquelas que a vida opera no seu curso natural - temos consciência disso quando a morte vem separar com um abismo vazio.

Na última semana não deixei de pensar nas separações. As pátrias, as religiões, os ódios e desprezos, as explorações e violações separam em vida pessoas umas das outras e de tal forma que cada uma delas pode operar a morte de outra sem sofrer a dor de separação vazia que a morte é. E vimos as famílias a precisar dos cadáveres dos familiares como condição para a separação entre a vida e a morte provocada pela guerra, embora não estranhem a separação que dá origem à guerra e que está antes da morte dos soldados. Dizem-me que é preciso encontrarmo-nos com o corpo ou o que dele nos derem para fazer o luto, para aceitar a separação. Não compreendo.

Ainda menos compreendo a atitude dos nossos banqueiros e financeiros que conduzem a guerra financeira, abusando e usando o dinheiro de outros para operações que, por não serem controladas, podem gerar lucros fabulosos. Eles não querem saber de onde vem o valor acrescentado ao dinheiro em movimento. Mas sabem que esse valor significa lavagem de dinheiro sujo, venda de armas e material bélico a bandidos, governantes e senhores da guerra, exploração sem limites, ... Eles sabem, na sua santidade aparente, eles sabem que as suas operações matam, que são mandantes de crimes sem nome. Sabem que não podem contar as suas vítimas. Também sabem que não lhes pedirão os cadáveres das vítimas dos seus negócios. Esses banqueiros podem ter usado o meu dinheiro para essa guerra suja.

E eles estão no meio de nós.


[o aveiro; 24/07/2008]
 
  a revelação
 
20.7.08
  dois em um
Há muitos anos atrás, fiquei uns meses a trabalhar numa escola de Aveiro. Devia estar em mudança de São Tomé para Cabo Verde ou em Cabo Verde, de S. Vicente para a Praia. Não sei. Nem sei em que ano. E nem isso interessa. Posso saber do que aconteceu sem saber quando aconteceu. E cansa-me procurar.
Nesse pequeno intervalo (dois ou três meses) leccionei em algumas turmas que me estavam distribuídas. De uma delas, lembro-me de alguns alunos e há quem, passados muitos anos,tenha falado comigo lembrando pequenos episódios desses meses em passagem. Devem ter-se divertido e eu também.

Uma aluna de então, Gabriela(?), contou-me anos depois que me tinha achado muito estranho. Em alguma deslocação com o pai a uma fábrica da região de Aveiro, tinha-me conhecido como motorista (camionista) da empresa. Ela sabia que o seu professor de matemática era camionista de longo curso e até sabia onde eu pegava ao serviço como camionista. Não sei como é que ela resolveu o problema. Mas lembro-me de ter sido dois, realmente dois.

Dos dois, um morreu a meio da tarde da passada sexta feira. Nas horas de espera, conversei com pessoas que não via desde esse tempo antigo. Um deles, Miguel(?), chófer de praça em Vagos, que me levou (e à família) ao aeroporto de então, falou-me de tudo e de nada, de todos e de ninguém (porque eu não sei o que ele pensa que eu sei) e assistiu comigo à passagem do barulhento cortejo de camiões (famílias inteiras na cabina) com histórias de fascínio pelos camiões e do meu fascínio pelos grandes navios sem porto. Por momentos, dei por mim sem saber quem morrera: qual dos dois?
 
18.7.08
  naqueles dias, hoje
hoje, estava lá para ver
as costas de um dedo
a desenhar assinaturas
na fronte distraída

tão tarde e tão cedo
para publicar ternuras
impossíveis em vida

para publicar a despedida
de quando o tempo se dobra
escondendo a parte

que nem parte
nem fica
 
17.7.08
  porque não era...
fez das tripas
coração
e mostrou na rua
o amor
que lhe corria nas veias

os vizinhos dele
acreditaram
no amor
que lhe viam passear
na flor da pele

mas
o instituto
nacional do sangue
não o aceitou
como dador

de sangue
 
15.7.08
  a agenda
Houve um tempo em que Santana e Menezes lutavam denodadamente contra Sócrates. As festas sucediam-se e todos nos sentíamos felizes por vermos o mundo parecer perfeito, agenda de sobras. A bagunça opsdocionista foi de tal ordem que o coro da ordem e da seriedade não tardou a impor-se. Por amor da agenda, devemos dizer que Menezes e Santana nunca chegaram aos calcanhares da agenda de Jardim.

De qualquer modo, há tempos, a agenda da velha senhora veio a votos e recebeu uma maioria de votos piedosos dos seus pares no baile dos pequenos baronatos que dançam com ela a aproximação à agenda do poder que lhes escapa. Alguns deles já debutaram, mas todos fingem que eles se aproximam pela primeira vez da agenda da salvação patriótica.

Os pobres não cabem em si de espanto ao verem como a velha senhora, na agenda de oposição, se apresenta reciclada para a sua defesa quando a única defesa que lhe conhecem foi uma agenda de ataque a todos quantos diz agora defender. Contra o governo que, também ele, se apresenta em agenda de defesa dos que agendam a falta de fé no que lhe dizem.

A semana passada ficou marcada pela estreia de nova agenda na bancada opsdocionista. De tudo se disse antes: virtudes magníficas, todos reconheciam ter o agenda. Depois do primeiro confronto sobre o estado da nação, li o que escreveram os repórteres de escaramuças, os relatores do politiquês, os professores que dão notas de agenda enquanto empurram com a língua, boca fora, as palavras que se despenham no balde do tudo ou nada, cheio de perdigotos e das lágrimas dos contribuintes para a televisão do estado da nação.

Até eu tenho pena de mim por ter de assistir aos espectáculos em volta da agenda. Os espectáculos em volta do discurso humano são feitos para desvalorizar as reais acções humanas. Pobre do homem que, honradamente, estudou e fez o seu papel o melhor que soube. Eu até compreendi o que ele disse e o que quis defender. Sem concordar com ele, pareceu-me uma honrada tentativa de agenda. Milhares de bocas falaram sobre o estado da nação e não há quem se lembre de uma palavra dita pelos actores que usaram da voz no anfiteatro.

Cumpre-se a agenda. Esquecidas as promessas, as políticas, as pessoas... cumpre-se a agenda.

[o aveiro; 17/07/2008]
 
8.7.08
  desenho, logo existe
 
  o descanso
Pareceu-me poder dizer que, em certas alturas da vida do homem que ando a perseguir, ele traz a cabeça pousada no ombro como se quisesse ver quem o persegue até eu ter a certeza que ele me está a ver. Ele quer que eu veja cada pormenor dos seus pequenos actos desinteressantes até me ver compor o quadro completo de tudo o que lhe tinha reprovado de forma desabrida.

O homem, que eu persigo pertinaz, não se deixa ficar num dos lados da sua vida na esperança que me aborreça e adormeça. Ele mostra-me mesmo nos mais obscuros pensamentos e deixa que eu veja o que ele não sabe. De certo modo, deixa-me ver o seu obscuro modo de fazer ou o seu modo de pensar e até o seu modo de falar nas reuniões. Olho para ele vendo como ele olha os textos. Ele deixa-me ver os acordos e desacordos das primeiras leituras. E deixa-me ver como cada opinião o influencia. Ele deixa-me ver como hesita demasiado até soltar uma tentativa de acordo numa dúvida que deve pairar ou numa sugestão que toma o lugar da dúvida. Ele deixa-me ver como toma o lugar do outro até perceber que mais vale ler como ele, na esperança que todos leiam desse modo esse mal o menos.

De vez em quando, o homem solta-se e deixa que o discurso se solte em alta voz como quem procura respostas nos olhares e nos esgares de quem ouve. De vez em quando, o homem deixa-me ver uma pergunta que se destaca do discurso como se fora uma faca afiada ou uma gargalhada inesperada surgida da dobra onde guarda as memórias detalhadas dos outros, essas que não são para usar. Tenho a certeza que ele dá por mim, que o persigo todos os minutos da sua vida para ganhar a vida, e começo a pensar que ele me dá tudo quanto eu preciso de saber para que eu não me canse. Há detalhes que nem me lembrava de apontar se não fosse a importância que ele lhes dá ao sublinhá-los.

Quando escrevo os meus relatórios, tenho de me controlar para não descrever detalhes que pareçam impossíveis pela observação que eu posso fazer a uma distância que não me denuncie. Tudo me é dado ver e saber sobre o homem que persigo e já sei que só durmo quando ele dorme, sem precisar de pensar nisso.

Eu sou o homem que persigo. Cada vez que um determinado quadro pode ser exposto, descanso. A crítica ao quadro exposto, ainda que errada, é uma crítica sobre o quadro que se pode ver. Porque haverá tanta gente a criticar o que não sabe e nem existe?

[o aveiro; 10/07/2008]
 
1.7.08
  desenho, logo existem
 
  desenho, logo existe
 
  os impostos inaceitáveis
Por dá cá aquela palha, ouvimos badalar a necessidade de baixar os impostos como cura para todos os males. Há dirigentes políticos, a começar pelos autarcas, que anunciam como sua virtude a vontade e a decisão de baixar impostos.

Ao defender a entrega a privados da prestação de alguns serviços fundamentais, com o argumento de que funcionariam melhor, os presidentes de câmara, vereadores e gestores da coisa pública desvalorizam a sua capacidade de gestão e acção. Ou não são eles os responsáveis dos serviços que querem alienar para outros que façam melhor? Ou não são eles que, ao mesmo tempo e a todo o tempo, garantem aos eleitores que são capazes de tudo fazer bem até merecerem ser reconduzidos nos seus lugares de gestores da coisa pública?

Não tenho nada contra os impostos cobrados claramente. Parecem-me baixos para os serviços sociais que suportam, se forem bons serviços e em boa hora prestados.
Serviços bons e claros nunca são caros. Sou contra os impostos que não estão declarados e são cobrados de forma cobarde e clandestina. Caras são as horas de vida que pequenas e poderosas repartições nos roubam. Caras são as horas de espera para o momento de protelar decisões. Caros são os impostos que pagamos ao sermos convocados para reuniões em que os dirigentes não conseguem tomar decisões e se deixam manietar pelos truques e tiques dos pequenos poderes nas suas administrações. Caras são as horas que vivemos sem qualquer proveito e onde a única novidade é o papel (ou a nova informação) que passou a faltar hoje e não faltava ontem e sem que o dirigente em presença denuncie, contrarie e mostre que percebe a incúria, o desleixo, a fraude, o prejuízo que tal arrastar de situações cria aos utentes. A administração aparece-nos tolhida por pequenos técnicos que passam mais tempo em corredores de conversa (de empatar umas vezes para agilizar demais outras) que em trabalho a apoiar decisões.

Por vezes, damos por nós a pensar que esse é o sistema onde vivem os que querem ver reduzidos os impostos com finalidade à vista e, por isso, a exigir prestação de contas, para os substituir por arranjos e combinações entre cúmplices do estado das coisas a que chegámos.

Há quem finja que estes impostos não são cobrados. Como ilusionistas disparam palavras contra todos os impostos. Sob a toalha dessas palavras e do medo, escondem os impostos dos dias e dos passos perdidos.

[o aveiro; 03/06/2008]
 
  desenho, logo existe
 
  desenho, logo existe
 

o lado direito




(...) o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».
Carlos de Oliveira
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