>
27.2.05
  a sexta porta
 
  a quinta porta


A porta por onde olhamos. Para onde olhamos?
 
26.2.05
  a quarta porta


As cruzes sobre as portas azuis. Todas as portas daquela casa carregam em suas ombreiras muitas cruzes.
Eu também.
 
  a terceira porta


O interessante já não é a porta da casa, nem o mesmo azul noutra casa fechada a sete chaves. O que importa agora é a nesga entre casas. Nâo dá para passar entre as casas. Mais que o nosso olhar nada cabe.
 
  a segunda porta


Outra porta trancada por fora. E o mesmo azul.
 
25.2.05
  porta


Emocionam-me as portas fáceis de abrir. Depois da casa roubada, trancas na porta! Quando estamos a olhar para uma porta destas, o que pensamos da frase?
 
  vermelho
 
22.2.05
  Contra o triunfo dos porcos
Esperámos que o povo nos devolvesse pelo voto um país sério e viável. Assim aconteceu.
Eles tinham começado a pensar que podiam manipular o público como se o país fosse o lugar de passagem dos sem cabeça e o poder como uma banheira cheia da água suja do banho de uma manada de criaturas dependentes de mama alheia. Era preciso que houvesse alguma coisa que abalasse a fé desta manada que começava a achar que todo o povo era feliz a ver como a manada engordava e se mostrava luzidia nos rodeios em sua arena.
Era preciso que acontecesse um abalo. E aconteceu. O povo votou todo o empenho em desmentir que o país estava a transformar-se em "quinta de celebridades". De tal modo o fez que os comentadores e analistas de serviço se apressaram a dizer que estes país não corresponde ao país real deles. Imaginem um país que é real quando se comporta de acordo com o império dos sentados comentadores da televisão e não é um país real quando vota na esquerda. Eles são doidos, mesmo não sendo romanos.
Esperámos que o povo nos devolvesse uma esperança qualquer. E o domingo amanheceu com um povo diferente dos conformados com o desemprego, com a corrupção, com o barulho das luzes da hipocrisia. Levantou-se o povo para mostrar aos amanuenses da tolice patética que nada é seguro para todo o sempre e que, para eles como para toda a gente, a porta por onde entraram é também porta de saída e serventia da casa política.
Esperámos que o povo nos devolvesse uma esperança qualquer. E tudo o que queríamos nos foi dado em dobro: a maioria mais que absoluta à esquerda. Os dirigentes socialistas vão ter de controlar os seus apetites e de cumprir a sua obrigação para resolver a grave crise em que o povo trabalhador foi mergulhado. Esperamos políticas de esquerda? Mais que isso: exigimos políticas de esquerda em que as pessoas sejam mais pessoas e menos unidades estatísticas.
Exigimos cultura. E civilização. Depois do que nos foi dado ver e viver com Santana Lopes, Paulo Portas e seus apaniguados arrogantes, qualquer ?nico? de educação será melhor que o nada que tínhamos. Mas não queremos pouco, queremos tudo a que temos direito e isso é mesmo muito, sendo para cada um e para mim nada mais que honra e trabalho social.


[o aveiro; 24/2/2005]
 
21.2.05
  o dia depois
O dia depois amanheceu claro.

Ao vento frio dou a cara
E o passo em frente

Pendura, em cada gota de gente,
Dos meus sorrisos, o mais raro.
 
18.2.05
  saí
saí de fora para dentro
por um dia.
 
15.2.05
  Olhar para eles.
Escrevo ao ritmo da transmissão do grande acontecimento que é a chegada de cinco dos líderes partidários ao único frente a frente geral televisivo desta campanha.

Antes tinha assistido ao espectáculo das transmissões das cerimónias fúnebres da carmelita Lúcia, a que não faltaram estrelas políticas e da quinta das celebridades que entraram sem passar pelas dificuldades dos populares e fiéis. O célebre Castelo Branco da quinta da TVI e sua mulher foram protegidos por alas de agentes da Polícia de Segurança Pública(?) como um fiel ou fã especial. Espantoso foi ouvir familiares de Lúcia queixarem-se que a nossa polícia de segurança pública os impedia de entrarem no local do culto e de homenagem. Quem definiu em que consistia o serviço público a prestar? Quem paga isto? Muitos daqueles a quem dificultaram as entradas. Não é?
E voltemos às transmissões das aparições dos líderes partidários. Uma repórter aparece a entrevistar os aparecidos e iluminados. Alguns deles, à saída dos automóveis são cercados por guarda costas e guarda peitos, um deles de gravata preta. Para além da repórter da RTP, há dezenas de outros fotógrafos a fotografar o movimento. Nunca me tinha interessado pelo movimento das personalidades políticas. Mas têm piada estes movimentos de personalidades nas aparições fulgurantes nos estúdios em contraste com as aparições fulgurantemente discretas nas cerimónias católicas.

Ouço agora os políticos em debate. E estou espantado. O mais extraordinário são as declarações sobre decisões políticas. Para os políticos da coligação do poder as decisões contestadas foram boas quando foram legais. Isto começa a ser recorrente. Uma coisa pode ser legal e miserável ao mesmo tempo. Mas parece que os políticos querem fazer passar a ideia de que tudo o que é legal pode ser feito. Um banco pede uma isenção sobre uma operação e ela pode ser concedida à luz da lei. Deve ser concedida? Não.

Há muitas pequenas coisas que decidem o voto. Os corpos de guarda costas, a mentira, a hipocrisia nas aparições dos políticos e nas suas declarações podem determinar o sentido de voto.

Olho para eles e sei em quem posso votar. Olho para eles e acendem-se alertas na consciência a dizer-me em quem não posso votar.

Dou aqui sentido ao meu voto nos desengravatados. Espero continuar a pagar impostos e que estes não possam ser gastos a pagar segurança a artistas de baixo nível como reverso da insegurança do povo.


[o aveiro; 17/02/2005]
 
14.2.05
  carnaval
... é também o luto.
 
11.2.05
  carnaval
Às minhas costas, as dores passam por mim sem me deixar para trás.

Eu visitava médicos tão raramente que eles todos se tinham esquecido de mim num canto do armário da louça "esbotenada" de que conhecemos a existência mas já ninguém usa.

Nas últimas semanas visitei tantos amigos como médicos e visitei até um amigo que já me escapava há nem sei quantos anos. As pessoas da minha idade ou geração têm um molde próprio. Dou por mim a pensar que me sinto bem com os antigos, independentemente das ideias que nos distanciam e aparentemente nos separam. Há um certo conforto em voltarmos aos lugares que os outros são na nossa vida.
Daqui a pouco, partimos para esse mundo de coisas coçadas e gastas, para o interior do conforto onde não há quem nos ponha à prova; nem perguntamos nem respondemos, recostamo-nos e descansamos. Se procurássemos a paz e não a felicidade inquieta, fazíamos de lugares assim a vida eterna.

Há uns meses atrás, por não ser surdo, deixei de fumar. Ando a tentar calar-me para não me ouvir e para não morrer pela boca, como acontece aos peixes. Agora dizem-me que também não devo comer até não ser a pança do sancho montada num esqueleto de burro escanzelado. E é isto a vida?

Eu visitava médicos tão raramente.
 
7.2.05
  carnaval
Na sala de estar, a mulher tinha pendurado várias janelas - daquelas pequeninas reproduções em alto relevo. Quando olhava para elas, sentado do outro lado da sala, o homem ficava sempre incomodado a pensar que alguém por trás daquelas cortinas o estava a observar. Nesses momentos, para ele era certo que estava na rua dos outros, exposto aos olhares. Porque ele está no exterior das janelas. Outras vezes, optava por aproveitar o facto de ter aquelas janelas ali na pacatez da sua sala. Ninguém saberia que ele espreitava as casas dos outros pelas janelas que a mulher tinha comprado para a sua sala. Mas não havia o que ver. Não havia os outros de que o homem fala, porque não é uma janela que faz as pessoas. E muito menos não estão perto da janelas as pessoas quando as queremos ver.
Ao fim de um certo tempo, o homem procura ver pessoas mais palpáveis e procura os lugares de ver para fora da sua casa onde está fechado. Como a janela é pequena e é muito alta, o homem só pode ver um cortejo de carros que passam numa avenida que só tem carros. Uma bicha de carros que passam ininterruptamente, com uma paragem obrigada pelas mudanças de luz do semáforo. O homem sabe que há pessoas em algum sítio, mas a sua vista não as alcança. Desiste destas janelas que são molduras de paisagens longínquas, espantosos quadros ao pôr do sol. Passa a vida a tirar fotografias aproveitando o enquadramento das suas janelas. Acaba por decidir-se e arrasta-se para a varanda onde pode debruçar-se e, com um pouco de sorte, alguém há-de estar a passar para ser visto. À hora em que tudo isto se passa, o homem só pode ver carros dos dois lados da rua. E desiste.
Há sempre a esperança da nesga que faz de janela da cozinha. Já sem esperança, o homem levanta-se e vai para o único lugar que dá para as casas dos vizinhos. E confirma que todos fugiram para onde não são vistos nem achados.

Volta à sala. E, de comando na mão, abre a última janela. Nesta, pode escolher o que quer ver como estando lá, fora de si. Pode escolher o carnaval (e vê-lo prolongado por duas semanas). As primeiras tentativas dão-lhe imagens e notícias do carnaval inaugural no Palácio de Cristal do Porto e de dois corsos em Castelo Branco. Mais uma vez, repete que não é uma janela que faz as pessoas. Sem coragem para mais carnavais e para esquecer as dores nas costas, o homem fecha os olhos que é uma maneira de fechar todas as janelas. E adormece.


[o aveiro; 8/2/2005]
 
  carnaval
Começou o carnaval... em Castelo Branco,
depois de um corso inaugural em Palácio de Cristal.
 
5.2.05
  ainda
Na quinta, tentei perder as costas pelas costas da cidade.
Comprando livros e discos. Mas antes que o dia tivesse acabado já tinha dado os discos e enviado pelo correio um dos livros. Os outros foram para trás das costas.
Na sexta, perdi-me e fui parar ao médico sem que as costas me tivessem virado as costas.
No sábado, ainda nem sei se tome lugar dentro do comboio ou se hei-de virar-lhe as costas.
 
1.2.05
  a canção do bandido
1.
Ainda não tinha assistido a qualquer debate ao vivo desta campanha. Para suprir essa falha na minha cultura, na segunda feira fui ao Porto assistir a um debate sobre a cultura em geral. Lá estavam representantes dos cinco partidos ou coligações com assento no parlamento para um debate proposto pela Plateia - associação de trabalhadores das artes cénicas - e moderado por uma jornalista do Público.
Pelo que me foi dado ouvir, o documento da Plateia recolhe o apoio de todos os partidos, apesar de levantar problemas, reclamar de injustiças e apontar faltas a quem tem governado e objectivos para quem venha a governar. Gostei de ver um conhecido actor de teatro e da televisão a actuar (e bem) como agitador de ideias, mas devo confessar que os políticos da direita presentes no debate são mesmo muito bons actores. Mostraram-se fabulosos e capazes de se dominarem mesmo quando foram denunciados os vencimentos milionários dos capatazes e comissários do poder nas instituições culturais ou quando foram denunciados os critérios e os loucos juízos emitidos pelos júris dos concursos nas áreas da cultura. Será que alguém mente por razões culturais?
2.
Na semana passada, participei em jornadas nacionais sobre educação ambiental em que se debatia a década das nações unidas da educação para o desenvolvimento sustentável. Não me espantou muito que o governo não se fizesse representar num debate alargado sobre um programa mundial que vai marcar uma década em aspectos tão importantes como a educação, o ambiente e o desenvolvimento sustentável. Não me espantou, mas é triste. Mais triste ainda termos constatado a inexistência de quadros superiores da administração pública que tivessem autonomia para participar nesse debate. Sabemos que o que se vai passar não pode depender em absoluto deste ou daquele governo.
3.
Nas artes cénicas, representações boas. No ambiente, representações em falta. Para compensar, uma revista semanal fez mais um génio português a partir de um meco de estrada e fez um apelo desesperado contra a esquerda e a favor do centrão como se estivesse em perigo o estilo de vida das tias da linha e isso fosse a identidade nacional que é preciso preservar. Agora têm sido apontados a dedo génios portugueses, um por semana, todos nos partidos do poder. Génios da lâmpada? Sabemos que é o nosso mau génio farsante, um fado menor, a canção do bandido, a fruta da época.


[o aveiro; 3/2/2005]


Notas:
Vale a pena ler na revista "Sábado" da semana passada: um espantoso e desesperado editorial, a elevação de Miguel Esteves Cardoso à categoria de génio, o artigo de opinião de MEC sobre a entrevista a F. Louçã.
 

o lado direito




(...) o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».
Carlos de Oliveira
Google

o lado esquerdo
World Wide Web

LIGAÇÕES


escreva-me que bem preciso.


bloGeometria
infinitamente Pequeno
mesura
desenha
combate pela Geometria

homem à janela


ARQUIVOS
Maio 2003 Junho 2003 Julho 2003 Agosto 2003 Setembro 2003 Outubro 2003 Novembro 2003 Dezembro 2003 Janeiro 2004 Fevereiro 2004 Março 2004 Abril 2004 Maio 2004 Junho 2004 Julho 2004 Agosto 2004 Setembro 2004 Outubro 2004 Novembro 2004 Dezembro 2004 Janeiro 2005 Fevereiro 2005 Março 2005 Abril 2005 Maio 2005 Junho 2005 Julho 2005 Agosto 2005 Setembro 2005 Outubro 2005 Novembro 2005 Dezembro 2005 Janeiro 2006 Fevereiro 2006 Março 2006 Abril 2006 Maio 2006 Junho 2006 Julho 2006 Agosto 2006 Setembro 2006 Outubro 2006 Novembro 2006 Dezembro 2006 Janeiro 2007 Fevereiro 2007 Março 2007 Abril 2007 Maio 2007 Junho 2007 Julho 2007 Agosto 2007 Setembro 2007 Outubro 2007 Novembro 2007 Dezembro 2007 Janeiro 2008 Fevereiro 2008 Março 2008 Abril 2008 Maio 2008 Junho 2008 Julho 2008 Agosto 2008 Setembro 2008 Outubro 2008 Novembro 2008 Dezembro 2008 Janeiro 2009 Fevereiro 2009 Março 2009 Abril 2009 Maio 2009 Junho 2009 Julho 2009 Agosto 2009 Setembro 2009 Outubro 2009 Novembro 2009 Dezembro 2009 Janeiro 2010 Fevereiro 2010 Março 2010 Abril 2010 Maio 2010 Junho 2010 Julho 2010 Agosto 2010 Setembro 2010 Outubro 2010 Novembro 2010 Dezembro 2010 Janeiro 2011 Fevereiro 2011 Março 2011 Abril 2011 Maio 2011 Junho 2011 Julho 2011 Agosto 2011 Setembro 2011 Outubro 2011 Novembro 2011 Dezembro 2011 Janeiro 2012 Fevereiro 2012 Março 2012 Abril 2012 Maio 2012 Junho 2012 Julho 2012 Agosto 2012 Setembro 2012 Outubro 2012 Novembro 2012 Dezembro 2012 Janeiro 2013 Fevereiro 2013 Março 2013 Abril 2013 Maio 2013 Junho 2013 Julho 2013 Agosto 2013 Outubro 2013 Novembro 2013 Dezembro 2013 Janeiro 2014 Fevereiro 2014 Março 2014 Abril 2014 Maio 2014 Junho 2014 Julho 2014 Agosto 2014 Setembro 2014 Outubro 2014 Novembro 2014 Dezembro 2014 Janeiro 2015 Fevereiro 2015 Março 2015 Abril 2015 Maio 2015 Junho 2015 Julho 2015 Agosto 2015 Setembro 2015 Outubro 2015 Dezembro 2015 Janeiro 2016 Março 2016 Abril 2016 Maio 2016 Junho 2016 Julho 2016 Agosto 2016 Setembro 2016 Outubro 2016 Novembro 2016 Dezembro 2016 Janeiro 2017 Fevereiro 2017 Março 2017 Abril 2017 Maio 2017 Junho 2017

Site Meter
Powered by Blogger


sob licença
Licencia de Creative Commons