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25.4.06
  recebi uma carta pelo correio
"O homem finge em relação ao amor,
quando o que procura é ... sexo.
A mulher finge em relação ao sexo,
quando o que procura é ... amor !!"

(Enrique Rojas)

É? - respondo eu.
 
24.4.06
  beijar a boca do dia
Caminhavas rente à madrugada. Entre os vinte e os trinta anos, bastava a tua sombra para te assustar. E uma folha de papel furtiva que transportasses era uma tonelada de medo a ser movimentada pela grama de coragem que voava à tua frente.

Caminhavas rente aos muros arrastando um pincel de sono e sonho, vermelho e amarelo, branco e preto. Escrevias cartas curtas sem saber quem as iria ler. Com a fadiga própria das noites longas, abrias os teus olhos de mocho mudo no beco e escrevias a carta necessária que mais valia ter ocupado rua onde passasse gente. Pensavas que era triste esconder a carta de amor no beco e pensavas que se fosses apanhado no beco não tinhas por onde fugir. Mas não deixavas de fazer esse gesto de amor, o mais irracional de todos.

E, mal rompia a manhã, lá te levantavas para o trabalho aos olhos dos vizinhos e dos colegas e encenavas a alegria de estar vivo. A alegria de estar vivo. Como hoje? Lembras-te da música das marchas que assobiavas nas manhãs sujas? Ainda hoje te perguntas: Se eras tão medroso como dizes que eras, porque assobiavas aqueles desafios?

Passaram tantos anos e a fadiga da idade reduz-te a passada de todos os dias. Nunca houve fadiga na tua liberdade.

Há uma irritação surda com todos os que se penduraram na boleia da liberdade (que não lhes custou a ganhar, embora já tivessem idade para fazer por isso), e dela fizeram carroça da fortuna, do poder e da glória mais vã. Passeiam-se em liberdade, fazendo gala da boçalidade e da imbecilidade mais atrevida contra a liberdade dos outros, dos que dela mais precisam. Porque sabem que só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, saúde, habitação... que era letra de canção e é ainda em grande parte... promessa por cumprir.

Quando a guerra acabou e a vida se tornou um rio de pura euforia, a alegria breve do amor fez-se eterna e murmuraste a terna promessa de que tudo quanto era bom podia ser possível. E, com liberdade, beijaste a boca dos dias.

Já avô e ainda podes mostrar a marca perene do beijo que guardaste do 25 de Abril de 1974. Que mais queres? Tudo o que era Abril e não era sonho. Tudo de tudo.

[o aveiro;27/04/2006]
 
18.4.06
  fruta da época
Quando dou por mim a escrever, nunca imagino que tenha de seguir algum caderno de encargos feito por terceiros que têm as suas prioridades legítimas, as suas preferências legítimas, as suas esposas legítimas, etc. Também não acho que tenha de seguir à lupa a actualidade que o parece ser e parece fugir.

Para mim, podem ganhar força de actualidade, a constituírem encargo para palavras minhas, assuntos que a mais ninguém interessam. Nos tempos que correm, a actualidade não existe em rigor. Um jornal, um grupo económico ou editorial (nem sempre são coisas diferentes), um canal de televisão ou um partido pode criar uma actualidade que pode não ser senão a artificialidade conveniente a um qualquer propósito quase sempre inconfessável.

Nestes últimos dias, há vários assuntos que são falados ou soam a falados. Frequentemente nem assuntos dignos de nota são, até porque não são mais que palavras, anúncios de anúncios, podem não passar das palavras aos actos e ser passos em falso. Há quem me acuse de não dar aveirística atenção a tão magnos assuntos. Não dou para esses peditórios.

Jornalistas há que até nos perguntam sobre pormenores dos assuntos que os "pormenorizadores" encartados têm de inventar por os não conhecerem. Não gosto de escrever sobre cenários que um professor alinhava do mesmo modo que classifica ministros com notas entre 8 e 12, debita o tamanho das bolas do estoril aberto, folheia o livro das memórias da razão de um novelo da linha, notícia nacional de estrangulamento ali aos cabos ávila. Nada me diz a actualidade propagandística do governo autoritário e servil, ou a do governo local que anuncia num dia o anúncio do dia seguinte ou a de algum facto político desejado pelo protagonismo da oposição a coisa nenhuma.

Outros que falem dos novos pecados, da regionalização encapotada e da vantagem da cidade dos doutores e cantores (e de ditadores também, claro), do juízo perdido entre cidades ip5, da demissão do polícia que devia ser a do ministro, das lições a tirar da manga e da magna carta da educação do "tory blair", etc.

Eu escrevo a respeito do nada, comentando a actualidade do relatório de um tempo passado sem presente.

A actualidade pinga da dentada na polpa da fruta da época e obriga-me a uma vénia.

[o aveiro; 20/04/2006]
 
17.4.06
  sumiu-se e voltou, como qualquer desenho




 
13.4.06
  a sede
Pudesses transformar-te até seres
em meus lábios como a água é a saliva
e formando o rio que corre e morre
como eu hei-de morrer para tu viveres
afogada na minha sede mais viva.
 
11.4.06
  o dia do meio
Hoje mais do que nunca, estou em dia do meio que é dia nem sim nem não, como se me tivessem encolhido a história do passado e me ameaçassem com uma história sem futuro.

Há arautos dispostos a anunciar que o fim da época de ouro em que vivemos está próximo, embora a maioria nunca tenha dado pelo ouro da época. Falam do fim, do fim da assistência na doença, do fim da segurança social, do emprego, do subsídio de desemprego, do fim de todos os serviços universais e essenciais para os quais há estado providência. Falam do fim.

Um porta-voz há-de vir dizer que estão a ser egoístas os que querem manter o emprego estável e com direitos ou que apelam à solidariedade social intergeracional e acrescentam às empresas papel social ao papel cotado em bolsa. O porta-estandarte dirá que quem luta pela manutenção do seu posto de trabalho, combate a flexibilização das leis laborais ou exige o pão nosso de cada dia está a estrangular o desenvolvimento económico e a pôr em risco o futuro dos filhos do futuro.

O mesmo dizem das organizações e partidos que, fora do circo do poder económico, procuram os olhos das pessoas reais e, sem os evitar, defendem as crianças de hoje enquanto exigem a modernização da economia sem o sacrifício dos que comem para trabalhar, produzindo sempre mais do que comem. Sabe-se hoje que a tragédia da nossa economia não foi nem é criada pelos trabalhadores e produtores e muito menos pelo seu egoísmo e incapacidade de adaptação, antes é criada pelo egoísmo e voracidade do capital que não quer ser produtivo para ser só financeiro e, vidrado pelo lucro fácil de cada dia, está incapaz de se ver como capital humano e social.

A modernização do tecido empresarial e económico só pode ser feita pela instauração da lei da selva cotada no mercado que não respeita nada nem ninguém do dia de hoje? Dizem os porta-notas que a libertinagem capital e o desenvolvimento económico vai criar obrigatoriamente novos postos de trabalho a compensar os sacrifícios exigidos ao presente.

Contra a invenção da solidariedade sacrificada ao futuro sem compromissos com o presente e a acusação de egoísmo lançada contra todos os presentes levanta-se um pequeno senão: os trabalhadores também amam os seus filhos hoje e eles precisam do pão nosso de cada dia.


[o aveiro;13/04/2006]
 
7.4.06
  desenho, logo existe




 
  desenho, logo existe




 
  desenho, logo existe




 
3.4.06
  porque...
(...)
Porque, abstraindo da necessidade de autoconservação, a qual por si não é susceptível de fundar nenhum dever, é dever do homem para consigo próprio ser um elemento útil para o mundo, porque isto também faz parte do valor da humanidade na sua própria pessoa, valor que ele não deve, pois, desdignificar.
(...)

[Kant]
 
2.4.06
  o fado
ontem perguntaram-me: que se faz por aí? e eu respondi: olho para a letra de um fado. do outro lado escreveram: lindo! e eu: não sei. só sei que é triste e não é o meu.
pode ser triste e lindo? talvez, mas dei por mim a ficar triste com a beleza da tristeza.
hoje perdi muito tempo a procurar um romance que anda a ser lido lentamente e se deixou ficar distraído num envelope triste e, sentado na minha capela privada, descobri que não olho para as coisas, preferindo a sombra das coisas. nunca desenharia uma toalha pendurada, mas imagino-me a desenhar a sua sombra no chão, talvez um pormenor da sombra. vejo-me a decorar sombras, a criar um registo de memória de sombras para os desenhos.
nada do que é real me interessa? e a verdade?
eu busco a sombra de cada coisa e de cada ente e entidade. a identidade está na impressão digital. no desenho. na sombra. melhor será dizer que nem busco - desenho as sombras que se atravessam no meu caminho, no meu tempo.
 

o lado direito




(...) o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».
Carlos de Oliveira
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escreva-me que bem preciso.


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