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31.8.07
  espelho
 
  a mesma janela
 
  o abismo
 
  olho
 
29.8.07
  é tarde
da boca para fora a palavra
coça no lugar da ferida
como uma demão de álcool
pinta a parede em carne viva

e um nó na garganta fecha o colar precioso
esse fio de cólera que desce do pescoço
até se perder entre os seios

como uma dor sem mãos.
 
28.8.07
  Outros estercos?
Alguns dias por semana, sábados e domingos de Agosto, o homem e a mulher têm de dar comida ao porco. O porco enorme exige algumas refeições de confecção rápida. Uma lavagem especial de fim de semana para o porco da casa? Abóbora cortada sem grande cuidado para um balde sujo com restos de vegetais da cozinha humana, uma medida de farelo, uma couve e água e... já chega! A "suite" porcina consta de duas acomodações. Ao ar livre, sob um céu de parreira, um quadrado amplo para desentorpecer os pernis durante o dia. E um coberto murado com cama de palha fofa para as noites do porco, aconchegadas e calmas. O curral está integrado numa instalação onde há ainda espaço para guardar palha e utensílios e onde brincam galo com galinhas e adoecem pintaínhos.

De manhã, mal fica preparada a lavagem, o homem do serviço de quartos entra no curral. Pelo lado de fora, carregada de batatas, a mulher aproxima-se do recreio do porco, como se fosse preparada para uma pateada a um espectáculo. No cercado hoteleiro, o homem poisa o balde perto da porta do quarto do porco e, por um estreito corredor, entra no recreio. O homem vai abrir a porta do quarto de dormir para a varanda. O porco não tarda a aparecer e, grunhindo descumprimentos e impaciências, agita-se numa passada rápida. O homem sai do recreio coberto e, já no extremo do corredor, pega o balde. A mulher chama porco! a quem o merece e atira algumas batatas em forma de prémio, protesto ou projéctil à passagem rebolada do porco. A mulher chama o porco para o recreio, enquanto o homem despeja o balde da lavagem na pia ao lado da cama. Ainda o homem não saiu e já o porco chafurda a abóbora fresca, com total desprezo pela pateada de batatas. Modelos! - resmunga a mulher.

Cumprido o serviço do porco, o homem olha para as galinhas de que se fala pouco. Uma das galinhas parece manca. Onde estava um esporão e um dedo com garra aparecem duas mal-formações perturbadoras. O homem tenta agarrar a galinha e acaba com ela ao colo. Hesita, antes de tentar retirar o que impede a galinha de andar. Aquelas massas muito duras parecem parecem fazer parte das patas da galinha. Com força puxa e até parece que a pata se vai quebrar. O operador do milagre acaba com duas pequenas bolas de esterco muito secas nas mãos e uma ágil galinha a esvoaçar e a correr... sem lhe agradecer a cura.

Aconteceu mais alguma coisa?

[o aveiro; 30/08/2007]
 
21.8.07
  61
 
  o funil

ninguém como eu para coar a luz
 
  o caminho

quem nos guia, guia a estrada
como quem desbrava, como quem lavra,
como quem procura o fim da linha:
um instante de descanso.
 
  a conta do gás

ouvir o tempo como um grave escoar-se na ampulheta movediça:
de cima para baixo o vórtice de um quarto de hora de areia fina
na calha a cair como se houvesse vida por viver por ali em repouso:

ou respirar na água salgada é exercitar as guelras cardíacas
e é para salvar um moribundo que o turbilhão da água marinha
bate os músculos contra a bigorna até fazer brilhar uma lâmina?

uma lâmina que atrai a limalha desfeita em ar metálico
e trespassa o corpo de luz onde se perde e à dúvida:

ou, é como um turista que o pó de ferro viaja
até ser a ferrugem do pulmão do ferreiro?
 
20.8.07
  armado de um garfo
dá-me duas boas razões para eu olhar por ti
abaixo ao velho pai bate o filho a porta do lar
de dia todos os gajos são pardos gaguejava
de dor que o garfo na falha de dente espetava


[
ninguém falava já naquela família diziam uns
para os outros isso não era novidade mesmo
há muito tempo que comiam sempre uma sopa
de legumes concentrados mudos e calados ouviam

o relato da história da família era um relato
de uma etapa da volta a portugal em que o tio
se tinha estreado na corrida de honra e despedido
numa vergonha que a urina da família desmerecia

tudo começava e acabava com a sopa e o relato
gravado durava tanto como a sopa pelas colheres
permaneciam para ali sentadas todas as mulheres
em silêncio nem rezavam nem deixavam rezar
]



dá-me duas boas razões para eu olhar por ti
e o passo em frente do pai sozinho esticava o dedo
o degrau avisava a campaínha e esta ainda a medo
desfazia-se no seu trimtrimtrimtrimtrimtrimtrimtri
 
13.8.07
  o ministro que arfava nas frases curtas
havia um ministro ou um fato completo que mal sabia ler
e soletrava umas breves notas quando alguém as deixava cair à sua frente

do que eu percebia pareciam-me coisas que nada me interessavam
e por isso nunca dei importância alguma à falta de caco do ministro

até que aqueles comentários só podiam ser levados a sério por aqueles jovens
que suam optimismo sábio enquanto cospem as tendências da bolsa
como quem declama uma declaração de fé no próprio analista,
o obituário de um grande negociante ou de um poeta muito importante
descoberto postumamente.


ainda me lembro de se falar do responsável da imagem
do ministro, fraco a ler e a falar pouco,
célebre por tentar articular, em vez dele, versos épicos
sem imaginar que, para o interesse nacional, do fato completo
quem dera que falasse ainda menos que nada

desse tempo sobraram estas memórias

dito isso só espero que saibam que nada ficou por dizer.
 
  a ordem descendente
tempos houve em que tudo corria em seu leito formal e até a lei
era feita para ser respeitada naquele país de rios obedientes
em que se falava de rigor todos os dias e e até à noite ao que sei

e houve até quem apontasse o país como exemplo para outras gentes
sabendo bem como apontar é feio.
 
12.8.07
  em memória
quando o ar fica assim solto no ar em pedaços solto
e nós o vimos como vimos nuvens
mas sem cor
só o vimos porque é possível ver uma vibração
ver o ar que vibra no seio do ar quieto
ou pelo menos lento
capaz de resistir ao calor sufocante para o ar

ficamos a olhar
através do ar as densidades do ar

e vemos as caras de quem morreu
por estes dias

às vezes reconhecemos um poeta que gostámos tanto de ler
e é agora incapaz de nos contar a história
de novo
porque já não lemos do mesmo modo
ou já não lemos simplesmente porque sobrevivemos
e somos de outro tempo
onde se percebe agora que o olhar que demos
aos poetas que morreram sempre foi uma compaixão
que só pode ser dada aos vivos
e não resiste à morte

pois sempre posso dizer que morreram
os que li fascinado por não ter escrito aquelas linhas
que eram as únicas que queria escrever e já ali estavam
perante o meu olhar postas na mesa por outras mãos
e máquinas

pois sempre posso dizer que morreram
e agora que não voltam cabe-me a mim bordar a toalha da mesa
deixada assim como um pano cru sobre a mesa sem uma única palavra
desvendada
embora as palavras cubram toda a mesa de uma ponta à outra
se não as palavras as linhas as linhas da mão rasgadas pelo fio dos dias
de quem fiou o linho deste abandono de verão na casa velha

onde os talheres contam mais que as palavras para as mulheres que vagueiam
produzindo os sons os choques dos gumes das facas os toques dos pratos esbotenados
pelo tempo os toques dos guardanapos com monogramas de poetas mortos
que raspam a música nas argolas e se repetem quando a mulher indica o lugar
dispondo os guardanapos sobre a mesa ocupada por pratos e copos, facas, garfos e colheres
e só depois os guardanapos com o chamamento pelo nome de cada poeta
convocado para a mesa

os que morreram aborrecem a mulher pois têm de ser chamados repetidamente até se ouvir
alguém dizer já não está entre nós maria
passa a outro
se te lembrares do nome ou de algum verso que alguém tenha escrito em vez do seu póprio nome
de tal modo que seja o verso a ser lembrado em vez da cara

por ter os olhos demasiado claros não suportava a luz do sol e ficou escondido na sombra da nave
por ter os olhos demasiado escuros não há quem se lembre da cor dos seus olhos e que não se pode ver
e por isso sem nome
e há mesmo um poeta que anda por aí a voar no ar da sala grande

e para grande espanto dele ninguém o chama porque dele nem peso nem nome nem presença

as pessoas preferiam que o poeta tivesse morrido de morte natural por exemplo se tivesse afogado
a este fardo insuportável de saber sem aceitar que o poeta foi perdendo peso
à medida que ia perdendo os dias que lhe faltavam para a sua passagem aérea
a ar e fumo ou só fumo que viesse a ser a sua forma aérea
como nuvem
e forma de estar acima dos outros
persistente mania treinada em vida com palavras cordatas calmas e sossegadas sem acentos que as fizessem estalar o ar
como asas de anjo ternurento capaz de todos os enganos escondidos sob litros
de suave água de colónia

quem havia de dizer que ele tinha tomado banho em água de colónia
e que eram mentiras vergonhosas os seus poemas de banhos de amargura
e mal estar?

quem havia de saber disso?

por isso a mulher decidida punha a mesa e por ele não chamava e ninguém olhava para cima para os lustres da sala
onde empoleirado estava o poeta de que lera fascinado toda a obra
enquanto a juventude me abandonava dia após dia
por descobrir que o que escreveria estava escrito
irremediavelmente por alguém que viera antes de mim
e roubara das minhas mãos a verdade e a mentira
fingindo que elas erravam por aí à mão de semear ao alcance até de um romântico
de merda medíocre que nem mereceria mais tarde o chamamento pelo nome
para a mesa

os poetas nomeados em altiva voz pela mulher primam pela ausência
e é a mulher quem come um poema inteiro de carneiro sentada à cabeceira da mesa.
 
11.8.07
  o tacto
os pratos.

o ar já foi distribuído pelos pratos
vê-se que está quente pelo vapor que se solta dos pratos
e da terrina

ainda não sorvemos o ar da sopa e já se desvelam outros pratos rasos de lágrimas

aqui não deixamos os poetas morrer
com falta de ar que se come e se bebe

já o ar de respirar nem para assunto de conversa é chamado.



as caçoilas.

na azáfama com as mãos embrulhadas no avental a mulher carrega
as grandes travessas de ir ao forno cheias dos restos das palavras
pelo fogo tatuados no ar suspenso
enquanto uma lágrima se solta ao canto do olho que vê nas cinzas a forma do poeta

a mesma forma marcada na cama como uma pegada de vento

aqui não deixamos os poetas apodrecer e sentados à mesa começamos a nossa oração
pela frase lapidar se havia de ser para a terra o comer...


o álcool e o fumo.

ele escreveu em cada um dos seus livros ardentes
que as refeições de despedida devem ser seladas pelo silêncio
da aguardente forte e do charuto que ele reservara para a despedida
assim ela se apresentasse

e caso ela não fumasse que alguém o fumasse.
 
  a água candente
 
  vermelho
 
7.8.07
  a cor do agosto
O acordo de governo de Lisboa celebrado entre Sá Fernandes e António Costa (ou entre o Bloco de Esquerda e o Partido Socialista) é um acontecimento novo na política portuguesa. Não há nada de novo do ponto de vista do reagrupamento de forças à esquerda ou à direita já que houve antes concertos de esquerda para o governo de Lisboa e a vereação da câmara foi composta por vereadores de vários partidos. Surpresa perante o facto do independente Sá Fernandes ser vereador com pelouro sob a liderança do PS? Nah...

Novo é o texto do acordo tornado público: tão simples que não permite várias leituras, tão claro que faz saltar interesses instalados à esquerda e à direita. O problema para os críticos não pode ser encontrado na circunstância de Lisboa, já que o acordo fala de medidas elementares, de denúncia fácil se não forem executadas. O quê para o saneamento financeiro e o quê sobre quais empresas municipais, estão a ver? Sobre os transportes, assume-se a defesa do transporte público em detrimento do privado e uma simples medida de reserva de canal para extensão de uma linha de eléctrico, estão a ver? É claro que há assuntos que dependem de negociações com o governo ou ferem interesses que vão resistir por todos os meios. Os construtores civis portugueses não vão aceitar ser tão civilizados como os que operam em Barcelona, Madrid ou Nova Iorque e já começam a faíscar os dentes de ouro dos patos bravos contra a obrigação da quota de 25% para habitação a custos controlados tanto em novos projectos como em operaçoes de reabilitação, como contra a escolha da reabilitação do edificado em detrimento das novas construções. Estão a ver?
No que respeita ao pelouro do ambiente e espaços verdes, assumido por Sá Fernandes, não houve invenção alguma e promete-se que o velho Plano Verde de Ribeiro Teles vai ser vertido para o PDM, como molde vinculativo de futuro, enquanto são referidas, uma por uma, as acções a concretizar até ao final do mandato. Estão a ver?

Eu estou no acordo. Para ver fazer a parte de cada parte. E porque o que António Costa aceitou assinar, faz dele um político de respeito. Há muita gente à espera que falhe. Eu só quero que dê certo. Lisboa é gente e merece que um acordo assim seja respeitado em acções. Por todos. E que todos ganhem na medida do que forem e fizerem.

Por lá e ... por cá, também. Que cada um receba em dobro o bem que faz e dobrado castigo para o mal de que é capaz.


[o aveiro; 9/8/2007]
 
3.8.07
  um dia destes
Um dia destes vou levantar-me para viver
E para que me escutem vou deixar de falar
E para que me leiam vou deixar de escrever

Porque estou cansado demais para emendar
A mão que escreve ou a voz que dói de rouca

Antes morrer de pé: no olhar na mão na boca
 
  castigo
quando ela voltou eu estava virado para a parede
tal como ela me tinha deixado
50 anos antes

e para mim o mais fácil foi fingir
que estava tudo como dantes.
 
2.8.07
  um caminho para nada
 
  de cada porta, um caminho
 
  na água, o céu
 
  corredor
 
  janela do olhar
 
  na fronteira, a porta
 
  como se o tempo tivesse paredes
 

o lado direito




(...) o homem que não dorme pensa: «o melhor é voltar-me para o lado esquerdo e assim, deslocando todo o peso do sangue sobre a metade mais gasta do meu corpo, esmagar o coração».
Carlos de Oliveira
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o lado esquerdo
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escreva-me que bem preciso.


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