cessar fogo

E agora? O que fazemos? - perguntou a criança, levantando os olhos para o pai. O pai pareceu distraído por uns largos momentos, como se não tivesse ouvido nem visto os olhos do filho inquieto. Também para mim, não foi claro que os olhos da criança não se fixassem numa nuvem muito acima da cabeça do pai e, por instantes, perguntei-me se a pergunta não teria sido feita a alguém mais acima, a alguém mais poderoso que o pai. Porque as circunstâncias são de tal forma que não nos permitem a veleidade de acreditarmos no poder humano das pessoas simples em decidir a sua vida com os seus.

Voltamos para casa! - respondeu o pai, sem hesitação, mas minutos passados sobre a pergunta. Soube que a mulher tinha ouvido, quando a vi movimentar o seu quadril gigantesco e puxar para si uma toalha colorida. Rapidamente, vi um grande embrulho feito; grande, para ser a vida inteira, e pequeno, para caber na bacia que o homem vai amarrar na grade que se vê sobre aquele automóvel azul empoeirado.

Para casa? - enquanto solta a pergunta, a criança está a lembrar-se do pátio pequeno onde até há um mês atrás brincava. Percebo que está a ter memória da casa pelo sorriso que lhe vejo nos olhos.

O homem tem os olhos semicerrados, como se tentasse ver muito longe dali, onde está e finca o seu pé direito sobre o pneu careca. A mulher está a ajeitar o seu corpo volumoso dentro do carro. Ela sabe que ele deseja ver a casa e teme ver escombros. Ela sabe que ainda falta acertar no caminho, fazer andar aquele carro azul empoeirado por estradas que já o não são, esperar um milagre em cada ponte destruída,... comer todo o pó de uma viagem que chegaram a pensar nem ter regresso.

A mulher redonda olha o rosto do seu homem, tisnado da inclemência do sol e chupado por rugas, fundas fronteiras entre vales de lágrimas, cólera ou ódio. À mulher não interessa encontrar a casa. Ela espera encontrar o seu lugar, reconhecer um cheiro, ver um trapo perdido, ... esperar os outros que hão-de voltar ao lugar.

Sentimos o que ela pensa: Talvez a casa já nem exista. Mas o lugar existe e saberemos que o encontrámos quando cada milímetro de chão for reconhecido por quem volta. Se um vizinho levanta um calhau e, do meio dos destroços levanta uma franja da sua vida, eu sei que posso sentar-me uns metros ao lado. Em meu lugar. Não preciso de mais para descansar e para que o meu filho recomece uma brincadeira interrompida pelo meu medo.

[o aveiro; 17/08/2006]

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