a quem não se conhece

Houve tempo para escrever um epitáfio a cada um dos conhecidos  mas a pensar em todos os que não reconhecemos, assinalámo-los com uma  cruz sobre o chão onde descansavam, procurando tornar claro que os considerámos da nossa comunidade religiosa mesmo sendo pobres e não nos merecerem outra memória senão uma cruz por cada um. Para que não se pensasse que não os tratávamos como iguais, todas as cruzes eram iguais entre si e, não levando em linha de conta os adornos, mesmo iguais como cruz às cruzes que se espalhavam por todo o cemitério dividido em linhas e colunas separadas por caminhos de saibro as linhas e por pavimentos coloridos as colunas. Mas nada de palavras e datas que os pudessem identificar como fizemos com os que reconhecemos como sendo os nossos. Os estranhos curiosos que visitavam o cemitério louvavam o gesto mas não deixavam de perguntar quem seriam os mortos que não tinham nome e porque diacho ali tinham vindo parar e porque ali ficavam enterrados naquele esquecimento de tipo particular: procurávamos tornar públicos que ali havia ossos enterrados mas ossos de ninguém.
Porquê? - perguntavam. Enquanto os visitantes fizeram perguntas às pessoas da geração que criou o cemitério e a regra, tudo parecia natural e a nossa comunidade foi considerada solidária e respeitadora para com os seus visitantes do passado desconhecidos na comunidade.
Mais tarde das perguntas feitas a pessoas que não sabiam por não terem ouvido palavra a respeito desse estranho hábito em cada cruz a marcar a existência dos ossos de algum visitante desconhecido passaram a ouvir outras explicações. Alguma coisa se quebrou a dada altura do que resultou uma grande época sem visitas até que sobraram duas pessoas da comunidade e nem mais uma visita de fora nem de dentro. As duas pessoas que ainda lá vivem não se conhecem e por isso ainda existem como guardas às portas das duas entradas que a comunidade tem: uma à entrada para cobrar a vida de quem entra e outra à saída para garantir que a vida fora cobrada como mandava o hábito mais antigo e conduzida até à entrada do velho cemitério.

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