literatura ou loucuratua .... de jovem invocando a sua loucura...

I

Vem loucura mãe das ideias todas
protectora amável do pensamento disperso
da ciência e da arte verdadeiras
das invenções modernas e do futuro.
Vem loucura tu que és a alma de tudo
e do nada
vem daí dançar esta noite é nossa
e toda a terra anseia os teus passos
serenos ou
um violento sapateado
tu que és a serenidade e a violência
que és a calma das almas sem calma
a raiva dos pobres de espírito
dos que pedem misericórdia
e se a pedem
é a ti quem pedem
ó loucura
minha alma
imaginação das coisas
das formas dos objectos sensíveis
e da sensibilidade dos dedos das operárias
que te tecem
ó loucura.

Tu musa das musas inspiração total
para lá das coisas visíveis
Vem
loucura
amante do esquecimento
e conduz o meu cérebro para esse vazio
para essa liberdade total
antes da morte.

Vem
loucura
imaginação da imaginação
loucura científica industrial técnica
da dissociação da matéria da fusão nuclear
roldana da forca do mundo

Vem
loucura
destruição da destruição
destruição total
maquinismo com alma
com direcção própria
imparavel mecanismo acima
do homem.

Vem loucura
ouve o meu louvor
e evita-me uma batalha perdida contra ti.
Tu que me revelaste o caminho
o progresso para um fosso universal
como se me abrisses a visão do inferno

Vem
e liberta-me desta condição selvagem
da luta quotidiana
contra a tua energia admirável.

Vem
e queima-me as mãos
mas deixa intacta a estrutura da casa
para os ratos do futuro.

Tu
loucura
da electrónica das modernas bombas
das guerras químicas
perdidas pelo homem
e já impossíveis de controlar
pelo homem

Vem.
Loucura dos impérios sem imperadores
impérios sem face das multinacionais
dos grandes trusts
dos computadores
onde cada homem não é mais
do que um gesto
(classificado e registado em fita magnética)
de que não adivinha as relações e a síntese
Vem.

Vem
loucura
e liberta-me do meu trabalho social
de reproduzir a tua matemática para acelerar
o teu poder já quase absoluto.
Vem
loucura
cabeça do mundo
e perde-me para a tua dominação material.
Mergulha-me nas trevas
em mim mesmo.
Faz-me passear pelas tuas ruas inventando cenas
e balbuciando coisas incompreensíveis
para que as pessoas se riam.

Vem
loucura
ajuda-me a partir
para esse reino dos que compreenderam
a tua magia

e preferem caminhar num para-universo
estranho
e ajudar-te como um gás hilariante
provocando na passagem
o riso até às lágrimas
inconscientes.

Vem
loucura
e enche a minha alma
de expressões sem significado
para a lógica do mundo
que é a tua lógica
afinal.
E sê piedosa para os que não sabem servir-te sem remorsos
Sê piedosa para ti mesma
acolhe-me na sombra do teu reino absoluto
antes de decidir sobre mim.

Vem
loucura
tu que me tens nas mãos
faz de mim a tua vontade.
Deixa-me só olhar uma última vez
as agulhas verdes dos pinheirais da aldeia
protecção derradeira porque longínqua
da tua civilização.

Deixa-me olhar a paisagem
por onde não desperdiçaste os teus desfolhantes
experimentais
mas já de comprovada eficácia
guardados às toneladas
nos teus armazéns
ó loucura.

Deixa-me mastigar uma laranja verdadeira
do quintal do meu irmão
embora já tingida da tua química
que tem fortalecido todos os géneros de bichos
à excepção do homem
inteligência perto da tua
e
por isso
objecto da tua última guerra.

Vem
loucura
sê minha alma
queima os meus circuitos
a minha memória da ciência
da pequena parte da ciência
que me deste
e me mandas transmitir.

E traz-me o alívio da inconsciência total
para que te sirva sem remorso.

II

Deixa-me depois vaguear como um desespero sonâmbulo
pelas tuas catedrais tecnológicas
pelos corredores dos teus computadores
pelas salas das tuas administrações mundiais.

Deixa-me rir contigo
destas pequenas guerras do petróleo
destes pequenos ensaios
que parecem preocupar o mundo.

Deixa que me aqueça nestas pequenas chamas
dos pipe-lines dos poços às refinadoras.

Deixa-me enganar o frio mortal
que me percorre o fio da espinha
enquanto espero
alma errante
o erro global
final.

Ó loucura bem amada
deixa-me partilhar do teu lado
a tua caminhada irreversível
para uma vitória só tua
que mais ninguém poderá reivindicar
nenhum governo
nenhuma multinacional
nenhum comité
ninguém
à altura do homem
poderá gozar.

Deixa-me saborear a inconsciência
do homem
antes da morte total
as suas pequenas presunções
as suas lutas gratuitas
que são as tuas pequenas experiências.v
Deixa-me
ó loucura
(verdadeira imperatriz
de uma humanidade de servos
que te conhecem mas não te conhecem
mas que te sevem sem pestanejar)
viajar pelos teus sub marinos atómicos
pelas tuas catapultas modernas de mísseis
intercontinentais
terra-ar
terra-terra
terra-lua
onde os teus servos guardam o seu ar seguro de vencedores
só porque decidem do movimento terrível desta
ou daquela partícula mortal.

E deixa-me visitar os pequenos países que demandam
o progresso actual
que instalam novas tecnologias
trocando o seu chão por tecnologia
só para ganhar as tuas graças
para mais decididamente estarem ao teu serviço
convencidos de outra coisa ou de coisa nenhuma
ó loucura desses povos
que não compreenderam ainda
que a ciência é um universo
que não serve outro senhor
que não sejas tu

ó loucura do mundo
acima do mundo.

E deixa-me visitar os grandes institutos
onde se fazem as melhores experiências
onde o homem prepara a grande energia
em nome do futuro e da defesa do homem.

Deixa-me ver os cientistas humanistas
lamentar que
em vez dos seus fins pacificos
armas ainda mais definitivas
saiam do ventre dos seus laboratórios.

III

Vem
loucura
digna-te descansar sobre os ombros
do teu servo.

Tuv que me falaste um entendimento claro
completo e universal
e
que
por isso
só podes ser uma linguagem de ti mesma
uma linguagem síntese de todas as línguas
repousa
e toma a minha língua
habitua-a à pronúncia dos teus sons
para que o homem não me entenda o delírio
o gozo de te servir.

Vem
loucura
linguagem única
e confunde nas cordas vocais da minha alma
as palavras
que a minha mãe
e a escola
me ensinaram a reproduzir
eu sei
eu sei que para o teu serviço
mas sê piedosa ó loucura
que os sons que eu produza
sejam a síntese das línguas humanas
sejam o recuo às cavernas
de onde partiste para o assalto
há milhões de anos.
Tu
loucura
solidão das solidões
altiva eternidade solitária
permanência dos urros e guinchos
nos ante-homens que recusaram erguer-se
sobre as duas pata traseiras
para te seguir
e preferiram mergulhar na consciência animal mais baixa
até que o seu extermínio
pela mão do homem
seja cumprido
este homem
ó loucura
que se exterminará a si mesmo
que para isso se dividiu em mil1ínguas diversas
ó loucura
todas da mesma raíz que és tu
que para isso inventou mil sistemas contraditórios
porque é na contradição que habita
a tua ideia
e és a síntese
a síntese final:
a última guerra
conduzida das tuas núvens de poeira atómica
pela unidade final
ó loucura
língua do universo
língua das línguas
que as tuas ordens são entendidas por todo o homem
para a acção
mas de que ao homem está vedado o significado mais profundo:
o fim desta harmoniosa
existência de contrários
desta evolução para a grande unidade cósmica
unidade
em torno do caos
do nada
essa tua verdadeira essência
ó loucura
bendito carrasco do mundo
língua de fogo
purificadora absoluta.
ó loucura
dona dos meus versos insensatos ao homem
domina a minha língua
usa-a para o teu exclusivo serviço
usa a minha demência
repousa nos ombros do teu servo.

IV

Guardo para ti
para te elogiar
em teu louvor absurdo
ó loucura
todas as horas mais criativas mais profundamente vividas
e espero de ti
ó loucura
que me tomes ao teu serviço
noutra esfera para lá do homem.

Só espero que compreendas a fraqueza
que se apodera da minha alma
a fraqueza de uma consciência
incapaz
de te servir
sem remorso.

Tu
que estás em todos os homens
e em nenhum
homem
tu
que comes em todas as mesas da inteligência humana
que tudo conheces
o conhecido e o desconhecido
que conheces o por vir
que te serves dos homens que te servem
que lhes conheces os medos
as incompreensões
e que os aconselhas
que lhes iluminas os caminhos do entendimento
as sombras do intraduzível
que dás explicações às suas consciências
para todas as dúvidas
que projectas a tua luz total
à medida que o homem descobre a sua escuridão
ou a pressente
tu
que cegas o homem com a crua luz
da tua finalidade fingida
neste ou naquele aspecto particular
do abismo humano
ó loucura
tu
que tudo compreendes
compreende o teu servo
e traz-lhe uma cegueira total
para a estrada destes séculos
da crise preparatória
da grande hecatombe.

Ó loucura
queima o passado
o presente
e a previsão do futuro
que domina este teu servo.
Deixa-me só a memória
da natureza vibrante
da ante-natureza do homem
deixa-me imaginar só os abismos naturais
as quebras relativas
e não os grandes abismos
forçados pelas grandes explosões subterrâneas
destes séculos definitivos
deixa-me ó loucura
a percepção do movimento da terra
as suas fracturas tectónicas
devidas às atracções naturais entre grandes astros
entre planetas
e entre planetas e a luz.

Não me deixes empalidecer
ao mesmo tempo
que o sol e os outros astros
afastados
aparentemente mais afastados
mas realmente menos visíveis
com as tuas nuvens de poeira se interpondo
entre o homem e o seu universo.

Ó loucura
deixa-me cegar
ou pelo menos
perder a sensibilidade
desta visão do presente
e do futuro
que os meus olhos procurem seu pasto
numa paisagem interior
mesmo
ó loucura.

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