desagradável

não sou nem quero ser perfeito ou cópia de modelo
com medidas ou virtudes escolhidas por alguém que pense ser
modelo perfeito, belo e virtuoso

sou velho demais para seguir caminhos direitos
sou cabeçudo demais para corredores estreitos
e sou gasto demais para não ser intratável e rugoso
e feio à vista e ao ouvido e ao tacto e ao paladar

sou velho demais para saber que sou eterno
não aqui não no céu e não no inferno
mas só porque não sou biodegradável
ou por ser, para tudo e todos, bem desagradável

sou velho demais para saber que um dia de vida
pode ser uma eternidade bem viva
e o eterno pode ser um só instante à deriva
uma partícula de tempo em tempos perdida

amiúde vagueio sem virtude mas sem receio
também sem conta e sem medida
como a vida
ou como a morte ou a falta dela




foi tudo o que ele disse olhando-me como se fosse eu na outra margem

onde nos sentamos a ver o mar

para sentirmos o céu imenso deitamo-nos de olhos abertos
vasculhando a terra
para saborearmos a pequenez da terra fincamos os pés no chão
abrindo os olhos à poeira luminosa do céu

para vermos quem amamos fechamos os olhos
e as mágicas pontas dos dedos
a medo
se abrem em corolas das mãos
e se

por momentos
o universo inteiro
sossega nas conchas das nossas mãos

por momentos
pulsa uma vida inteira

Faz bem à Madeira, ...

... não a mim que me habituei a viver sem guelras. Asfixio, pois.
Mas não é como estão pensar. Nem porquê.


... É só humidade excessiva. O que mais poderia ser?

a quanto?

valemos quanto? quanto valemos.
a quanto se vendem quantos? uns quantos se vendem a quanto.
um vale quanto? quanto vale um.
quanto vale cada um? em média, a média.

insulto seguido de provocação

Quem sabe, faz. Quem não sabe, ensina.
                                                                        Bernard Shaw
Que não sabe ensinar, forma os professores. Quem não sabe formar professores, faz investigação educacional.
                                                                         acrescentado por António Nóvoa
citado de António Nóvoa. Professores - Imagens do futuro presente.Educa. Lisboa:2009.

o instante da eternidade

Que farás tu se eu arranhar a tua porta?
- Estou pronto. Podes entrar. Vens ficar comigo? Vens buscar-me?
E se eu te der uma chave para a vida eterna?
- Posso usá-la mais tarde?
Porque não aproveitas logo?
- Não queres gozar comigo a inquietação da vida instantânea?
Posso?
- Comigo podes sempre contar ...

uma manhã

rezo as matinas.

a quem levanto a voz? é a pergunta breve
que me ocorre tão sussurrada como o são as matinas
no seu silêncio vazio que as faz tão leves

até, sem ganhar asas, voarem livres de peso
atraídas por um farrapo de azul

ou por uma mão cheia de nada, a eterna
realidade que, sem o ser, persiste
sem ser alegre e sem ser triste

novo ano de lições

nestas horas matinais, a aragem fresca fala
a quem quer ouvir a fala da aragem
e, mesmo sabendo da iminente viagem,
sai para o futuro sem antes arrumar a mala

féretro

quando as portas de Agramonte se abrem para a paisagem,
última e cega dos que, ao nosso lado, fizeram a sua viagem
guiando passos incertos dos incertos caminheiros que somos

abrem-se também para um abismo onde somos o que já fomos
de par em par por um ventinho bom, uma memória da passagem


até lá, ao fundo do imaginário mira douro

... quase, quase a acordar

Descansei em ti o meu olhar, como só uma ave cansada de voar pode olhar. Digo-te adeus hoje e sei que não posso deixar de te dizer amanhã adeus de novo. De asas cansadas, poisarei no teu beiral, só por um instante te olharei, alisando maquinalmente as minhas penas sem ânsias de voar, mas certo de partir. Parto para longe, onde não possas ouvir-me gritar, depois da volta larga em frente da tua janela. Parto sem partir definitivamente. Digo-te um adeus sumido. Porque não sei mais que dizer ou fazer e os meus gestos têm a economia própria de quem voa. Quem voa assim tão desajeitadamente? ouço o espanto de uma ave verdadeira, enquanto eu caio a pique ... quase, quase a acordar.

Re: Mensagens

Quando  posso escrevesses com a mais perdido de quanto …. No dia 06/07/2024, às 10:23, Arselio Martins <arselio@gmail.com> escreveu: M...