bater do coração

entram na sala e a sala enche-se deles de sons de palavras soltas umas pelas outras palavra puxa palavra pairam palavras por toda a sala de palavras. só uns momentos... até que dêem pela falta das minhas palavras e os olhares comecem a substituir as palavras que se vão sumindo sem que outras tomem o seu lugar. até à sala vazia de sons até que o silêncio seja cal: e eles ouçam o bater compassado do meu coração: e eu possa enfim abrir os olhos para falar.

de certo modo, velho em santiago

o homem cumprimenta-me na rua como se casualmente
me reconhecesse a cara de cabisbaixo cheio de mágoa
hesita por momentos e acaba por falar em ira calmamente
sobre o caso da vizinha idosa a quem cortaram a água

o homem fala como se desdobrasse uma ruga da fala
e pergunta como tornámos as pessoas abertas em fechadas
cada uma como um apartamento de si presa ao sofá da sala
lábios secos presos a torneiras de dor secas e caladas

e pergunta repetidamente quem secou as fontes as nascentes
dos caminhos e dos bairros onde só bebe dos contadores
quem tem moedas para metros cúbicos de banhos quentes
a cantar nas canalizações lá fora por alheios corredores

e pergunta se não posso pedir uma fonte para santiago
que a fonte dos amores não é longe mas feita monumento
às portas da cidade sem água à vista diabo que carago
de cidade onde ainda lavar-se a sede pode ser tormento

eu não sei que diga mas vou adiantando que a junta pode
resolver o problema pode lá ser que possa não saber
da freguesa sem pão e água com essa é que me fode
diz o homem enquanto retoma o caminho sem me ver

desagradável

não sou nem quero ser perfeito ou cópia de modelo
com medidas ou virtudes escolhidas por alguém que pense ser
modelo perfeito, belo e virtuoso

sou velho demais para seguir caminhos direitos
sou cabeçudo demais para corredores estreitos
e sou gasto demais para não ser intratável e rugoso
e feio à vista e ao ouvido e ao tacto e ao paladar

sou velho demais para saber que sou eterno
não aqui não no céu e não no inferno
mas só porque não sou biodegradável
ou por ser, para tudo e todos, bem desagradável

sou velho demais para saber que um dia de vida
pode ser uma eternidade bem viva
e o eterno pode ser um só instante à deriva
uma partícula de tempo em tempos perdida

amiúde vagueio sem virtude mas sem receio
também sem conta e sem medida
como a vida
ou como a morte ou a falta dela




foi tudo o que ele disse olhando-me como se fosse eu na outra margem

onde nos sentamos a ver o mar

para sentirmos o céu imenso deitamo-nos de olhos abertos
vasculhando a terra
para saborearmos a pequenez da terra fincamos os pés no chão
abrindo os olhos à poeira luminosa do céu

para vermos quem amamos fechamos os olhos
e as mágicas pontas dos dedos
a medo
se abrem em corolas das mãos
e se

por momentos
o universo inteiro
sossega nas conchas das nossas mãos

por momentos
pulsa uma vida inteira

Faz bem à Madeira, ...

... não a mim que me habituei a viver sem guelras. Asfixio, pois.
Mas não é como estão pensar. Nem porquê.


... É só humidade excessiva. O que mais poderia ser?

Re: Mensagens

Quando  posso escrevesses com a mais perdido de quanto …. No dia 06/07/2024, às 10:23, Arselio Martins <arselio@gmail.com> escreveu: M...