
a cegueira de quem lê é de quem ouve
Ouço todas as notícias, ouço tudo. Quando leio, falo para mim - só eu me ouço. Quando leio em voz alta deixo de ler e começo logo a inventar e a acrescentar enredos ao texto.
Eu gosto de falar em voz alta como se estivesse a ler. Já mais do que uma vez fiz isso: falar como se estivesse a ler. Já mais do que uma vez tive um desgosto com isso.
Mas também já me defendi bem dessa maneira: já disse muitos disparates sem apanhar com uma chuva de dissabores, porque as pessoas pensaram que eu não fazia mais do que ler em voz alta uma página de livro.
As pessoas perdoam-me as páginas dos livros, não me perdoam as opiniões.
Quando me ponho a falar, fingindo que estou a ler, deixo perceber um certo tom teatral próprio de quem declama. E as pessoas desligam-me do texto - olham para mim como se fosse um actor, altifalante das palavras de outro. É confortável.
Um dia, subi a uma cadeira de esplanada, com os olhos vendados e, de livro na mão, recitei um longuíssimo poema, aparentemente decorado. Não era poema nenhum. Eu estava a dizer, com o ar dramático dos cegos, uma ladainha longa em que cada frase era inspirada pela anterior.
Quando caiu a primeira moeda no meu chapéu ao fundo da cadeira, soube que o poema era bom.
Os meus melhores textos nunca foram escritos. Só foram lidos, … de olhos vendados.
Na hora da Mudança
Depois de apresentações em Aveiro (na Biblioteca Municipal com Márcia Souto, Filinto Silva, Joaquim Filipe e Francsco Vaz da Silva...) e Lisboa (no Grémio Literário com Márcia Souto, Filinto Elísio e ... ) no mês de Julho,
compreender a beleza
Ele sempre disse que o pior está por vir. Tanto podíamos acreditar como não acreditar. E eu habituei-me ao meio da ponte.
Ele sempre disse qualquer coisa. E nós, os outros, só tínhamos que o ouvir (e falar se disso fossemos capazes). Todos nos diziam isso mesmo. Mas não me lembro de som algum que tivéssemos produzido ou que, mesmo que vagamente, se ouvisse no cimo do monte onde acampámos à espera do inimigo que nunca chegou.
A beleza? Foi para aqui chamada e faltou. Não a compreendo.
nada me serve
havia o vigésimo quinto de abril e o primeiro de maio para me apagar,
mais um na multidão,
sendo parte do que não se pode apagar
por ser um dos que faz a multidão
não querendo ser visto só como mais um
sem desafinar as palavras de ordem com um toque de desordem
escolhia bem sempre sector diferente de manife para manife
pensando animar ao somar-me como desconhecido novo
até que um dia ao meu lado alguém disse mais um
não faz do finito o infinito
o que é verdade
vai e volta
eu quis encontrar-te num verso sem avesso
que fosse o teu e o meu regresso
ao canto da casa onde a voz se solta
uma vez e outra vai alegre e logo volta
até que me e te reconheço
que fosse o teu e o meu regresso
ao canto da casa onde a voz se solta
uma vez e outra vai alegre e logo volta
até que me e te reconheço
onde
amanhece
onde pelas paredes
te deitaste
para dormir
com as mãos medes
o que contaste
para me fazer rir.
onde pelas paredes
te deitaste
para dormir
com as mãos medes
o que contaste
para me fazer rir.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Re: Mensagens
Quando posso escrevesses com a mais perdido de quanto …. No dia 06/07/2024, às 10:23, Arselio Martins <arselio@gmail.com> escreveu: M...
-
Quando posso escrevesses com a mais perdido de quanto …. No dia 06/07/2024, às 10:23, Arselio Martins <arselio@gmail.com> escreveu: M...
















