Abril


lembro-me de um tempo em que desenhava cravos vermelhos em paredes abandonadas. já não sei desenhar cravos automaticamente.lembro-me de uma idade em que gritava não silêncio não silêncio não a acompanhar a marcha compassada de uma multidão. da cadência dos batimentos nos empedrados ainda me lembro, mas não guardo de memória o som da cadência não silêncio não silêncio não silêncio que, fila a fila, os sapatos da multidão repetem ao toque do tambor ou das palavras de ordem. vaga a vaga em frente. hoje há uma desordem nos meus passos e pensamentos feitos de uma vontade intensa de que não se possa prever o meu próximo passo. como se tivesse passado a fazer parte da multidão que salta fora da cadência previsível, em vez de ser o que já fui, megafone ou tambor a ordenar uma marcha com destino conhecido.

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