o diário

hoje caí na asneira de olhar para o lado. ao meu lado, ia uma senhora com uma bengala que golpeava o ar compassadamente. o ar que nos rodeava bem tentava desviar-se das bengaladas. sem conseguir. o ar atrapalhado do ar deu-me vontade de rir e quando uma gargalhada se preparava para sair a bengalada no ar atingiu-me a gargalhada que saltitava à minha frente. assustado, perdi a vontade de rir. comecei a procurar a vontade de rir pelo chão. quando a vi, baixei-me para a apanhar. e apanhei com uma bengalada mesmo em cheio na mão que acabava de pegar a vontade de rir. o ar que até aí andava a fintar as bengaladas pôs-se de cócoras para ver melhor o meu ar. senti uma lufada de ar, uma gargalhada de ar. com pena vi que tinha perdido toda a vontade de rir e toda a vontade de a procurar. o pior é que não estranhei a falta de vontade. à minha volta, o ar andava às voltas tentando ter graça. eu não lhe achei graça nenhuma. para além do riso, deixei de achar graça. se calhar nunca mais vou achar.

bater do coração

entram na sala e a sala enche-se deles de sons de palavras soltas umas pelas outras palavra puxa palavra pairam palavras por toda a sala de palavras. só uns momentos... até que dêem pela falta das minhas palavras e os olhares comecem a substituir as palavras que se vão sumindo sem que outras tomem o seu lugar. até à sala vazia de sons até que o silêncio seja cal: e eles ouçam o bater compassado do meu coração: e eu possa enfim abrir os olhos para falar.

de certo modo, velho em santiago

o homem cumprimenta-me na rua como se casualmente
me reconhecesse a cara de cabisbaixo cheio de mágoa
hesita por momentos e acaba por falar em ira calmamente
sobre o caso da vizinha idosa a quem cortaram a água

o homem fala como se desdobrasse uma ruga da fala
e pergunta como tornámos as pessoas abertas em fechadas
cada uma como um apartamento de si presa ao sofá da sala
lábios secos presos a torneiras de dor secas e caladas

e pergunta repetidamente quem secou as fontes as nascentes
dos caminhos e dos bairros onde só bebe dos contadores
quem tem moedas para metros cúbicos de banhos quentes
a cantar nas canalizações lá fora por alheios corredores

e pergunta se não posso pedir uma fonte para santiago
que a fonte dos amores não é longe mas feita monumento
às portas da cidade sem água à vista diabo que carago
de cidade onde ainda lavar-se a sede pode ser tormento

eu não sei que diga mas vou adiantando que a junta pode
resolver o problema pode lá ser que possa não saber
da freguesa sem pão e água com essa é que me fode
diz o homem enquanto retoma o caminho sem me ver

desagradável

não sou nem quero ser perfeito ou cópia de modelo
com medidas ou virtudes escolhidas por alguém que pense ser
modelo perfeito, belo e virtuoso

sou velho demais para seguir caminhos direitos
sou cabeçudo demais para corredores estreitos
e sou gasto demais para não ser intratável e rugoso
e feio à vista e ao ouvido e ao tacto e ao paladar

sou velho demais para saber que sou eterno
não aqui não no céu e não no inferno
mas só porque não sou biodegradável
ou por ser, para tudo e todos, bem desagradável

sou velho demais para saber que um dia de vida
pode ser uma eternidade bem viva
e o eterno pode ser um só instante à deriva
uma partícula de tempo em tempos perdida

amiúde vagueio sem virtude mas sem receio
também sem conta e sem medida
como a vida
ou como a morte ou a falta dela




foi tudo o que ele disse olhando-me como se fosse eu na outra margem

onde nos sentamos a ver o mar

para sentirmos o céu imenso deitamo-nos de olhos abertos
vasculhando a terra
para saborearmos a pequenez da terra fincamos os pés no chão
abrindo os olhos à poeira luminosa do céu

para vermos quem amamos fechamos os olhos
e as mágicas pontas dos dedos
a medo
se abrem em corolas das mãos
e se

por momentos
o universo inteiro
sossega nas conchas das nossas mãos

por momentos
pulsa uma vida inteira

Re: Mensagens

Quando  posso escrevesses com a mais perdido de quanto …. No dia 06/07/2024, às 10:23, Arselio Martins <arselio@gmail.com> escreveu: M...