planos da fé

1. "A Página da Educação" de Janeiro incluía artigos com vista sobre o "Plano de Acção para a Matemática Básica" da iniciativa do Ministério da Educação. Jaime Carvalho e Silva lembrou um outro plano de acompanhamento da Matemática, morto prematuramente por uma mudança de ministro. No ensino secundário, nenhum plano foi prematuro em seu parto e quase todos têm morte prematura já que raramente resistem a mais que um ministro. Quem se preocupa com estas coisas do ensino, não pode deixar de se preocupar com a doença que ataca tudo quanto mexe. Tudo o que mexe é obra de um governo e, por isso, morre às mãos do ministro que se segue.

Cada novo plano para o ensino nos vem lembrar isto. Tudo o que é nacional é bom para quem colhe louros no jardim do poder. E é por isso que morre, mesmo que seja para ressuscitar sob outro nome mais adiante.

2. O que é verdade é que muitas notícias sobre o ensino da matemática são fabricadas sob tutela centralista, genérica e... fatalista. Escrevemos pouco sobre as iniciativas locais ou talvez nem haja iniciativas locais ou específicas dignas de ser notícia. De certo modo, os governos aparecem como donos da iniciativa e isso tanto dá para a vida como para a morte. Os governos são donos da vida e da morte dos sistemas de ensino. Não porque a maioria dos serviços de educação e do ensino são prestados pelo Estado (por instituições públicas ou privadas sob tutela), mas porque os governos reservaram para si toda a iniciativa. De tal modo e tão concertados agiram, ao longo de décadas, que atrofiaram as autonomias e criaram um sistema globalmente ingovernável e localmente deficiente. Nenhuma autonomia local sobrou da montanha de letra morta que foi crescendo a cada nova lei escrita sobre a autonomia que devia ser tanto mais potente nas palavras quanto mais impotente fosse em actos.

Não podemos deixar de louvar as iniciativas centrais viradas para melhorar o ensino. Mesmo que elas sejam a prova provada da incapacidade local, a falta de capacidade para iniciar o que verdadeiramente conta. As escolas e os professores reagem com vigor a todas as iniciativas centrais porque tudo lhes falta ou porque é preciso agradar em entusiasmo e dar mostras de interesse e optimismo. Neste sistema de passa culpas é fácil condenar cada elo localizado e frágil, porque é um sistema onde ninguém tem desculpa.

3. No território onde vivem os factos, a crença de alguns actores e organizações está virada para avivar o esplendor de alguma ocasião que possa ligar-se ainda que artificialmente com a iniciativa. Outros não deixam de gritar a quem passa o desconforto do desacerto dos prazos desde a candidatura de papel à execução embrulhada na rigidez cadavérica das normas, do desacerto entre a candidatura da instituição de papel, os professores do papel da candidatura e as escolas ou professores que vivem a realidade de cada circunstância sem saber do tempo necessário a verdadeiras mudanças no território. Professores autores? Só actores ou não mais que factores, cobradores de bilhete numa viagem que a todos é recomendada e a poucos aproveita.

É verdade que quem quer fazer as coisas andar, sabe encontrar os meios necessários. E que quem não quer fazer coisa alguma, saberá encontrar as desculpas certas. Ou de outro modo: Não perguntem o que pode o governo fazer; interroguem-se sobre o que pode cada um de vocês fazer pelo vosso país. Também há quem se tenha interrogado e tenha vivido para a experiência de ser tolhido e atropelado por quem pode, louva e trava ao sabor dos ciclos de governação. Quem pode? Os grandes poderes são pequenos, mesquinhos e mal-educados muitas vezes. Os pequenos poderes armaram-se até aos dentes ou até parecerem grandes e mal-educados.

4. Os planos de acção reclamam da acção que os salve. Declarações de fé não produzem resultados em educação republicana. Digo eu... a quem sabe.


[a página da educação; 02/2007]

há   50 anos

Há 50 anos estava a frequentar a 4ª classe da escola primária e ainda estava longe de imaginar que passados uns meses iria entrar num liceu de uma cidade onde iria pela primeira vez. .

Depois de ler alguma coisa que eu escrevera, a minha primeira professora de português avisou-me que não podia ser tratada da mesma forma que uma mulher a dias era tratada por ela e por isso devia regressar para o meu tempo e para o meu lugar que lhe parecia que eu não era de cidade nem de vila e talvez nem de aldeia. O meu primeiro professor de desenho disse que eu devia cavar batatas nas terras de minha mãe e que não podia desenhar bem, talvez porque as almas de artista não se davam bem com os ares do campo ou porque os desenhos dos camponeses não sobreviviam aos ares da cidade. De que me lembro mais? Não lembro outros gestos de professores, nem caras de professores desse tempo. Lembro corridas num pátio interior cercado de paredes altas com quatro portões fechados, ocupado por rapazes pequenos a correr enquanto fugiam uns dos outros. Lembro uma marcha qualquer a meio de uma semana e de uma farda a que faltava sempre qualquer coisa. Diziam-me que eu fazia parte da mocidade portuguesa e eu achava que, aos dez anos, era pequeno demais e era novo demais... para ser moço. Havia outra escola para as raparigas. Lembro a miha irmã mais velha que estava a acabar o liceu e me protegia de todo o mal nesse primeiro ano de cidade e que ao segundo ano já não estava por perto e eu tinha de esconder o medo que sentia em tudo quanto era esquina.

Não lembro qualquer associação de estudantes. Não lembro o jornal dos estudanes. Soube mais tarde que não podia lembrar, porque me perguntavam pelo que não existia. Nem havia liberdade de expressão, nem havia liberdade de associação. Nem liberdade.

Onde estava há 50 anos? Talvez a chegar a esta escola.


[o estêvão; 01/2007,
da associação de estudantes
da escola josé estêvão]

fiama

nunca aprendi a desenhar embora tenha tentado desenhar
como os meus heróis desenhavam.
nunca me passou pela cabeça culpar durher, leonardo, picasso ou dali
por não os ter imitado bem nos desenhos das cabeças
da santa, do homem e do touro.

nunca aprendi o poema que ainda me falta escrever embora tenha copiado laboriosamente os poetas porque pensava que além de os ouvir ao ler precisava de conviver com eles, precisava de os acariciar,
de te acariciar.

sei desde então e até agora na hora da tua morte que não é culpa tua
eu não ter conseguido ou ter esquecido as duas linhas que eu sei que já li no ar lavado e ainda brincam às escondidas

porque eu não sei se as palavras estão perdidas ou ainda esperam som a som ou letra a letra a fala da minha mão.

Santo do dia

Como qualquer outra coisa do dia, há também o santo do dia. Não aconselho vivamente, mas não queero que lhe falte o santo quando dele precisar.
Por exemplo, o santo do dia diz-me que hoje é dia do mártir S. Sebastião- o mártir, que aparece nas igrejas atado a um tronco de oliveira (?) e crivado de setas.

São Sebastião, segundo Santo Ambrósio, nasceu em Milão. Era um valoroso capitão do exército romano, pertencente à primeira corte da guarda pretoriana. Sofreu o martírio sob o reinado de Diocleciano. Cristão convicto e ativo, tudo fazia para ajudar os irmãos na fé e trazer, ao Deus verdadeiro, soldados e prisioneiros. O próprio governador de Roma, Cromácio, e seu filho, Tibúrcio, foram por ele convertidos e confessaram a fé mediante o martírio. Denunciado como cristão, São Sebastião foi levado perante o imperador para justificar tal procedimento. E confessou publicamente a sua fé. Acusado de traição à pátria, foi condenado à morte. Amarrado a um tronco, foi varado por flechas, na presença de guarda pretoriana. São Sebastião conseguiu sobreviver, e corajosamente se apresenta perante o imperador, censurando-o pelas injustiças cometidas contra os cristãos, acusando-os de inimigos do Estado. Incitou o imperador para que os deixasse em paz. Diocleciano, entretanto, permaneceu surdo a seus apelos, mandou açoitá-lo até a morte e lançou o seu corpo em uma cloaca. Era por volta do ano 284.

No mesmo lugar, também lhe dão a oração apropriada para pedir graças e agradecer ao santo do dia. Não hesite em recorrer ao seu santo. Hoje leia e reflicta sobre uma tal prece da libertaçãos dos ídolos . Quem diria!

Pode obter a lista de santos, procurar pelo nome e até por tipologia. Não se pode pedir mais.

Há mesmo alguns santos que pensávamos nunca terem obtido tal favor de qualquer papado - Santa Joana, filha de Afonso V, a quem pode pode dirigir a oração do amor incondicional

a arte da bicha

Muitas pessoas da minha geração acreditam piamente que aprenderam tudo o que era realmente importante e lamentam profundamente que os jovens desprezem a possibilidade de aprender esse essencial. Chegam a desprezar os novos saberes e competências que se tornaram necessárias por via do desenvolvimento científico e tecnológico, literário ou artístico. O estado moderno, em contra-corrente, não pode deixar de, apesar disso, introduzir os temas que são vitais ao futuro da comunidade embora a ignorância popular tenda a recusá-los. O estado paga este serviço e obriga até as escolas privadas a ensinar esses temas. A minha geração ensina e promove a leitura, a audição e a visualização de filmes e peças teatrais ou obras literárias, musicais, pictóricas e escultóricas que não tinham sentido há 50 anos.

Verdade seja dita que a minha geração está na idade do poder, político, económico e cultural, nos governos regionais e locais, nos jornais, nas instituições todas. E só muito contrariada tem de acalmar o seu desfavor contra o que não conhece e nem pode adivinhar. Alguém esqueceu que teve de lutar pela música eléctrica, pela poesia que não rimava ou pela literatura de Almada a negar Dantas, pela arte de Amadeo, pela liberdade de ir ou não ir para as bichas.

O acontecimento cultural das bichas para a exposição de Amadeo Souza-Cardoso serviu a um editorialista para reclamar contra apoios e subsídios aos agentes culturais que não conseguem merecer a companhia de uma bicha de povo. Diz ele que estas bichas são a prova de que não é preciso criar públicos e que o "nosso problema é responder a solicitações dos públicos que existem e que só não aparecem porque muito do que lhes é oferecido pura e simplesmente não tem qualidade"(?).

Eu não sei adivinhar o futuro de uma coisa ou de outra, mas acho que o ensino e a criação artística são bons usos para os impostos. E sei que uma bicha ou uma procissão de consagração do que está estabelecido não é a estrada real para o futuro. Amadeo não se faz fundamental para a cultura por ser motivo desta bicha gulbenkiana. Amadeo é fundamental por ter continuado persistente a fazer caminho depois de ter sobrevivido às agressões dos ofendidos visitantes da sua primeira exposição de há 90 anos. E é fácil imaginar, ameaçador e de bengala em riste contra o Amadeo de então, um editorialista capaz de louvar as bichas culturais do seu tempo.

[o aveiro; 18/01/2007]

as duas pastas

Trago sempre duas pastas dentífricas dentro da pasta onde guardo também alguma roupa interior e lenços de assoar. Nunca me foram úteis a...